Valentões, Molha-camas e o visto versus o não visto.

Por Tom Naughton, o original está aqui.

Tradução por Daniel Castro.

Recentemente, alguém me acusou em comentários de ser um valentão (NT.: o autor usa o termo bully, de onde vem o termo bullying. Bully possivelmente tem dia origem em “parecido com um touro”, mas valentão é um termo corrente no Brasil que encaixa melhor na tradução desse termo.) porque eu continuamente chamo as pessoas que querem lockdowns de molha-camas. Isso me fez rir, já que são os molha-camas que querem dizer a todos onde elas podem ir, com quantas pessoas podem ficar, quais empresas podem abrir, quem tem que usar máscaras em quais situações etc. – e eles querem que qualquer um que os desafie seja preso. Isso é um valentão.

Graças aos molha-camas, a resposta histérica ao coronavírus provavelmente causará mais danos (incluindo mais mortes) do que o próprio vírus. Por que os molha-camas não vêem isso? Acho que a melhor explicação está em alguns conceitos de disciplinas fora da medicina.

O primeiro é um conceito em engenharia de softwares denominado separação de preocupações. Em termos mais simples, ele significa que cada uma das funções principais do sistema reside em sua própria pequena caixa de código e é projetada e mantida por um especialista naquela função.

Por exemplo, recentemente programei uma interface de usuário que exibe dados que são recuperados de um banco de dados por um serviço da internet. Outra pessoa codificou o serviço da web. E uma terceira pessoa projetou e mantém o banco de dados. Não precisamos saber muito sobre o trabalho uns dos outros… e isso é algo bom, porque o campo de TI (Tecnologia da Informação) é muito grande e muito complexo para uma só pessoa aprender tudo.

Na maioria das vezes, a separação de preocupações é uma coisa boa em TI. Mas às vezes a separação causa problemas, como quando um administrador de banco de dados decide fazer mudanças em uma tabela de um banco de dados, e essas mudanças fazem com que os aplicativos parem de funcionar.

A separação de preocupações também existe na medicina, e essa separação pode produzir tratamentos ruins. Lembro-me do cardiologista do meu pai insistindo que ele TINHA DE TOMAR SUAS ESTATINAS! porque seu colesterol estava alto. Não importa que meu pai estivesse decaindo mentalmente e que as estatinas são conhecidas por causar problemas cognitivos. A única preocupação do cardiologista era reduzir o índice de colesterol. A saúde do cérebro de meu pai não era sua preocupação.

O segundo conceito é econômico: o visto e o não visto. (NT.: tal conceito foi explicado pela primeira vez por Frederic Bastiat no livro O que se vê e o que não se vê). A explicado breve é que ações sempre produzem efeitos secundários – muitas vezes não vistos, e muitas vezes não desejados.

Suponha que aumentemos o salário mínimo para 20 dólares por hora. Claramente, algumas pessoas com pouca qualificação ganharão mais dinheiro. Isso é o visto. Mas os empregadores vão contratar menos pessoas e, quando possível, substituir os funcionários que se tornaram muito caros por quiosques [eletrônicos] e outras tecnologias.

Como resultado, será mais difícil para uma pessoa não qualificada conseguir aquele importante primeiro emprego. Isso é o que não se vê. Ninguém fala sobre as pessoas NÃO contratadas por causa do novo salário mínimo. (Thomas Sowell escreveu um livro fantástico sobre o que é visto versus o que não é visto, intitulado Applied Economics: Thinking Beyond Stage One (em tradução livre: Economia Aplicada: Pensando além do Estágio Um). O Estágio Um é o que é visto; os efeitos não vistos aparecem mais tarde.)

Se um novo vírus começar a matar pessoas e você perguntar a um especialista em pandemias – vamos chamá-lo de Dr. Falshi (NT.: no original, Dr. Foolchi, um trocadilho envolvendo a palavra Fool, ou seja, tolo. Adaptei o trocadilho ao mais próximo possível na língua portuguesa) – o que fazer, ele provavelmente recomendará interromper o contato humano tanto quanto possível. A taxa de infecção pode diminuir como resultado, e na área de preocupação do Dr. Falshi, isso significa que ele teve sucesso.

Mas aqui está o problema: Dr. Falshi não é um especialista em economia ou em tratamentos de câncer, ou nos efeitos do estresse em [pessoas com] doenças cardíacas ou depressão. Se as pessoas perdem seus empregos, morrem de câncer que não foi detectado a tempo porque os consultórios médicos foram fechados, têm ataques cardíacos por causa do estresse de estarem desempregadas ou caem em depressão por falta de contato humano e começam a usar drogas … bem, esses não são suas preocupações. Portanto, se você está em posição de definir uma política governamental e pergunta ao Dr. Falshi como responder ao vírus, deve ter em mente que ele provavelmente não sabe se um fechamento do país criará problemas maiores do que os que supostamente resolve.

Infelizmente, muitos desses problemas maiores caem na categoria do não visto. Claro, todos nós sabemos que o desemprego disparou desde o fechamento – o que levou muitos ignorantes arrogantea a declararem que eles se importam “mais com vidas do que dinheiro!” Mas, como muitos economistas apontaram, não é uma questão de vidas versus dinheiro. É uma questão de vidas versus vidas, porque esses efeitos não vistos matarão pessoas.

Em uma postagem recente, o Dr. Malcolm Kendrick explica como o estresse financeiro provavelmente causou um grande aumento nas mortes por doenças cardíacas depois que a União Soviética foi extinta e milhões de pessoas ficaram subitamente desempregadas. Os lockdowns estão causando estresse financeiro semelhante. Ele conclui com o seguinte:

Fomos persuadidos a aceitar o lockdown com a promessa de que centenas de milhares de vidas seriam salvas no Reino Unido – e milhões em todo o mundo. Nós nunca fomos alertados sobre os milhões de vidas que poderiam – e temo que irão – ser perdidas como consequência de um lockdown. Eu considero isso negligente. Especialmente já que, nesse caso, o paciente era toda a população da Terra.

Um artigo no Reino Unido dp Daily Mail deu o seguinte alerta:

Mais de 200.000 pessoas podem morrer por causa de atrasos nos serviços de saúde e por outros efeitos econômicos e sociais causados pelo lockdown, alertou um relatório do governo.
A grande maioria das mortes – 185.000 – é atribuída a uma longa espera por tratamento em longo prazo.
Mas até 25.000 mortes teriam ocorrido nos primeiros seis meses devido a atrasos no sistema de saúde, de acordo com especialistas dos Departamento de Saúde e Assistência Social, Escritório de Estatísticas Nacionais, Departamento de Atuário do Governo e Casa Civil.
Com as medidas de lockdown em vigor e as prioridades do hospital mudadas, pacientes provavelmente perderam atendimentos médicos que poderiam salvar suas vidas, para ataques cardíacos e derrames, bem como diagnósticos precoces de diabetes e doenças renais.
A Universidade de Oxford descobriu na semana passada que 5.000 pacientes com ataques cardíacos a menos foram hospitalizados entre março e maio.

É verdade que os números são especulações. Mas digamos que a estimativa seja exagerada e apenas metade desse número morrerá no Reino Unido por causa dos lockdowns. Ainda assim são 100.000 pessoas. Até hoje, o Reino Unido relatou um total de cerca de 46.000 mortes relacionadas à COVID. Se 100.000 pessoas morrerem dos efeitos não intencionais e e não vistos do lockdown, ele matará duas vezes mais pessoas do que o próprio vírus. Isso é uma barganha bem ruim.

E temos esse aviso do Center for Infectious Disease Research and Policy (Centro para Pesquisa e Políticas para Doenças Infecciosas):

De acordo com uma análise de modelos comissionada pela Stop TB Partnership, (Parceria para parar a tuberculose), um lockdown que prejudique os diagnóstico, tratamento prevenção de tuberculose por dois meses, seguidos pelos 2 meses necessários para que tais serviços voltem ao normal, poderia resultar numa crescente quantidade de pacientes tuberculosos não detectados e não tratados. Nos próximos 5 anos, isto poderia produzir 1,8 milhão de casos de tuberculose adicionais e 342.000 mortes globalmente. Num cenário ainda pior de um lockdown de 3 meses, e um período de restauração [dos serviços de tratamento de tuberculose] de 10 meses, os casos globais poderiam subir em 6,8 milhões, com 1,4 milhão de mortes adicionais, a análise descobriu.

Centenas de milhares de mortes – talvez um milhão de mortes – apenas por atrasos no diagnóstico e tratamento da tuberculose. Dr. Falshi e seus colegas em todo o mundo provavelmente não pensaram nisso. Não é sua área de preocupação.

e temos esse alerta da UNICEF:

Um adicional de 6,7 milhões de crianças menores de cinco anos podem sofrer definhamento – e, portanto, tornarem-se perigosamente subnutridas – em 2020 como resultado do impacto socioeconômico da pandemia de COVID-19, alertou a UNICEF hoje.
De acordo com uma análise publicada no The Lancet, 80 por cento dessas crianças seriam da África Subsaariana e do Sul da Ásia. Mais da metade seria do Sul da Ásia.
O aumento estimado no definhamento de crianças é apenas a ponta do iceberg, alertam as agências da ONU. A COVID-19 também aumentará outras formas de desnutrição em crianças e mulheres, incluindo retardo de crescimento, deficiências de micronutrientes e sobrepeso e obesidade como resultado de dietas pobres e mau funcionamento dos serviços de nutrição. Os relatórios da UNICEF feitos nos primeiros meses da pandemia sugerem uma redução geral de 30 por cento na cobertura de serviços nutricionais – e que muitas vezes que salvam vidas – essenciais. Em alguns países, essas interrupções atingiram de 75% a 100% sob medidas de lockdown.

Agora adicione o estresse e a depressão causados por incontáveis pequenos negócios destruídos, o desemprego, a solidão etc etc., e eu diria que a cura tem sido muito pior do que a doença.

Essas consequências não previstas não foram causadas pelo vírus. Elas foram causadas pela reação molha-camas ao vírus. Elas foram causadas pelo fechamento de grande parte da economia mundial para que todos pudéssemos nos abrigar e estar seguros e blá-blá-blá. No início, quando pouco se sabia sobre a taxa de infecção e morte, um lockdown temporário fazia certo sentido. Mas continuar a agir como se o coronavírus fosse a AIDS transportada pelo ar não faz sentido algum neste momento.

Então, para todos vocês molha-camas, FIQUEM SOB LOCKDOWN ATÉ QUE TENHAMOS UMA VACINA E ESTEJAMOS SEGUROS!, fodam-se seus Eu me importo com vidas! “sinalizadores de virtude”. O que você quer dizer é que se preocupa com sua vida. Você não se preocupa com todas as pessoas ao redor do mundo que morrerão ao que não passa de histeria em massa. Você ficará feliz em sacrificar essas pessoas se lockdowns contínuos significarem que há uma pequena, minúscula ou menor ainda redução nas chances de você (ou sua avó de 81 anos) pegar o vírus.

Se você não é idoso ou frágil devido a alguma doença subjacente e quer que todos nós fiquemos trancados em casa até que uma vacina surja, isso significa que você está disposto a deixar outras pessoas morrerem para não pegar um mero resfriado.

E se você pensa que sou um valentão por apontar isso e chamar vocês de um bando de molha-camas, bem, eu realmente não me importo.

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