O Homem no Poço, e o Caminho da Sabedoria

Por Quintus Curtius, o original está aqui.

Tradução por Daniel Castro.

No seu trabalho alegórico Kalila e Dimna, o escritor Ibn Muqaffa descreve a jornada para a sabedoria de um de seus personagens, um homem chamado Barzouyeh.  Barzouyeh foi o homem mandado pelo rei da Pérsia para a Índia para adquirir o precioso texto de Kalila and Dimna, que supostamente continha o equivalente em tesouro de sabedoria.  Ibn Muqaffa usa bastante tempo discutindo a educação e o caminho de Barzouyeh até a sabedoria; e nos será instrutivo relatá-los aqui.

Quando ele ainda era um jovem homem na Pérsia, e uma vez que ele havia completado os rudimentos de sua educação médica, Barzouyeh percebeu que ele tinha quatro escolhas na vida. Ele explica mais:

Eu tive de escolher, conforme pareceu a mim, entre quatro coisas, que em geral ocupam a atenção e engajam as afeições dos homens: a aquisição de riquezas, a obtenção de um bom nome, os meios para conseguir prazeres temporais, e a provisão para o futuro. E descobrindo a partir dos escritos dos médicos, que tinham o último objetivo constantemente em vista, eu determinei que perseveraria na profissão que havia escolhido, para ao menos não me tornar o mercador que vendeu um rubi precioso por uma pérola sem valor. [NdA.: Traduzido para o inglês por W. Knatchbull, com pequenas edições]

Em outras palavras, ele percebeu que era importante ser prático, e procurar ganhar a vida na profissão que ele escolhera. Ele também pôde ver que a própria vida era fugaz e não permanente, e que era melhor se focar na aquisição de sabedoria do que perder tempo em bobagens e distrações:

Com essas reflexões eu fortifiquei minha resolução de preferir somente o que fosse substancialmente bom, sabendo que nosso corpo, por sua própria constituição é sujeito à corrupção, e que a vida, que é transitória, pode ser comparada a uma estátua, cujos membros soltos são mantidos juntos por somente um prego, que se for removido, levam as diversas juntas a ceder, e as partes a cair aparte; e aquilo que é sólido é a sociedade de amigos ou amantes, cujos prazeres são muitas vezes comprados com um valor alto, e terminados por uma interrupção qualquer, como um prato de madeira, que foi usado na mesa, e quando quebrado, não serve para nada além de ser combustível para o fogo.

Ele percebeu mais e mais que se ele fizesse de coisas fugazes e sem valor o foco de suas atenções, ele seria pago com miséria e perturbações emocionais. Sua curiosidade eventualmente o levou a examinar diversas religiões, e ver quais eram as doutrinas de cada uma delas. Mas as conversas que ele teve com diversa pessoas sobre o assunto não foram satisfatórias: cada pessoa tinha sua própria opinião, e estava convencida de que seu próprio credo era o melhor, Era o melhor, ele pensou, simplesmente aderir à “persuasão de meus ancestrais.” Sua própria mortalidade era um fato de que ele estava cada vez mais ciente de:

Eu não podia, porém, esquecer que o fim de minha existência estava se aproximando velozmente, e o fim de todas as coisas do mundo estava próximo, e que o fio da vida muitas vezes é cortado no momento em que a saúde e a felicidade prometem assegurar a continuidade de nosso ser… eu comecei a ver claramente a inconveniência e o perigo de uma mente inquieta, sem um determinante de conduta ou opinião, e resolvi, ouvir àquela voz que alerta, e que nunca falha em se fazer distintamente ouvida dentro de nós…

Nossas gratificações físicas trazem prazer no momento, mas temporário e ilusório, desaparecendo como a névoa da manhã. O homem é como o cão que rói um osso velho, convencido que o cheiro de carne pode reter alguns nutrientes, mas ele não retém. E quanto mais ele rói o osso, mas ele machuca suas gengivas e o faz sangrar. Outra analogia sobre os prazeres físicos são que eles são como um saco de mel com veneno no fundo dele: o gosto de mel é doce conforme o consumimos, mas o veneno no fundo do saco chega cada vez mais próximo de nossos dedos. O único caminho adiante, Barzouyeh percebeu, era adotar o caminho da sabedoria, não importa quão difícil isso seja. Não havia nenhuma outra escolha prática. Porque ele podia ver claramente que sua sociedade estava num estado de degeneração, e que a única maneira de se defender do mal era adotar a sabedoria como sua armadura externa. Ele notou, usando uma linguagem que evocava Salústio, que em sua era:

Homens honestos e tornaram indiferentes, e os maus se revelavam em perversidades; o entendimento não valia nada, e a vaidade havia tomado seu lugar; o opressor andava atrevidamente à luz do dia, e a luxúria e a cobiça haviam deixado de lado todos os escrúpulos e vergonha, porque o contentamento era visto como fraqueza. A reputação não era mais um objeto de ansiedade, porque a falta de valor haviam chegado à honra e ao poder, e homens de caráter eram obrigados a sair de cena ante às pretensões de criminosos, potenciais ou bem sucedidos; e era doloroso ver este triunfo do mal, o quão longe homens dotados de razão poderiam ir tão longe até esquecerem a dignidade de sua natureza, e a eminência orgulhosa na qual eles ficavam de pé, até perder a visão do destino elevado de sua alma nas gratificações sensuais.

Eventualmente Barzouyeh é capaz de criar uma analogia que expressa sua visão sobre a condição do homem. Um homem, ele nos diz, é como um condutor que é jogado de seu elefante e cai num poço. Mas conforme ele cai neste poço, ele é capaz segurar alguns galhos próximos à superfície do poço, e se salvar de uma queda livre ao seu interior. Ele acha algo onde segurar: suas mão seguram dois galhos, e seus pés encontram duas pedras proeminentes próximas ao muro para descansar. Porém quando ele olha mais atentamente a seus pés, ele percebe que estas “pedras” são na verdade as cabeças de quatro cobras que saíram de suas tocas. Para piorar, ele mal pode ver que no fundo do poço há um dragão com a boca aberta, pronto a consumi-lo se ele cair de sua traiçoeira posição.

E ele olha para cima e vê que próximo aos dois galhos aos quais ele se agarra estão dois ratos (um branco e um negro), lentamente roendo os galhos. Finalmente, há uma colmeia próxima a ele: e quando ele prova [o mel] ele fica tão encantado por sua doçura que ele esquece todos os perigos que estão à sua volta naquele momento. Ele esquece sobre o dragão sob ele; ele esquece sobre os ratos comendo os galhos que o mantêm no lugar; e ele esquece das quatro cobras onde ele se mantém de pé. Mas sua situação terrível tinha uma sentido alegórico para Barzouyeh. O poço representava “o mundo com sua sequência de males que pertencem a ele.” As cobras são os quatro humores (NT.: sangue, biles amarela e negra, e fleuma) do corpo humano que podem se tornar tóxicos e letais se forem perturbados; os dois ratos representam a noite e o dia, que inevitavelmente nos levam à idade avançada e à morte; o dragão é a própria mortalidade, que está esperando por todos nós; e o mel representa os desejos voluptuosos, que servem para nos distrair de nossas responsabilidades.

Este era o significado da analogia de Barzouyeh sobre o homem perigosamente se agarrando à vida dentro de um poço. Assim era, para ele, como cada pessoa se encontra no mundo. Ele tirou as conclusões necessárias disto:

Eu deste modo estou determinado a permanecer no meu estado atual, prestando atenção à minhas ações, com o propósito permanente de levá-las ao mais alto grau de perfeição que sou capaz, na esperança de um dia achar um guia para minha conduta, um poder para controlar as afeições de minha alma, e um administrador fiel de meus afazeres mundanos.

Com isto ele quis dizer que continuaria com suas responsabilidades profissionais, e se devotaria mais e mais ao estudo da sabedoria, que, ele sabia, sozinha tinha o poder de salvar o homem da miséria ou de um fim antecipado. Isto é o que da significado à vida, e pode nos dar o poder de transcender a natureza precária de nosso estado físico.

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