O Arquiteto da Imaginação

por Quintus Curtius, o original está aqui.

Tradução por Daniel Castro

O homem foi feito para a ação. Mesmo que ele não saiba disso– especialmente se ele não souber disso– seu ser físico se revolta com longos períodos de inércia indolente, e anseia pela liberação física da disputa violenta. Isto é parte do seu sangue-espírito, seu Ser interior irreconciliável. Ele pode tentar negar isto, e ele pode tentar evitar as consequências desta realidade; mas no final esta simples verdade retorna para encará-lo. Mesmo o bicho preguiça corpulento irá se acender como uma bola de pinball quando levado a discutir tópicos de intenso interesse dele; ele irá pular de sua cadeira, gesticular selvagemente, e segurar firme naquele tópico para o qual todas suas energias são dirigidas. Dentro dele está aquele desejo primordial pela ação, e isto nenhuma quantidade de gordura subcutânea pode suprimir.

Conforme Cícero nos recorda em On Moral Ends:

Então aquele que é mais dotado com aptidão natural e feitos jamais gostaria de viver uma vida em que ele estivesse sem sua habilidade de agir, mesmo que ele fosse capaz de se indulgir nos mais sedutores prazeres. Tais homens preferem se focar em seus afazeres pessoais; se por acaso eles tiverem um espírito mais elevado, eles podem aproveitar a oportunidade para uma posição de comando civil ou militar; ou, ao invés disso, podem dedicar suas energias ao estudo intelectual. O prazer físico é tão distante de seu objetivo que eles aceitarão stress, fardos, e privação de de sono no serviço da melhor parte da natureza do homem, que em nós deve ser considerada divina. Eles sentem prazer na agudez de suas mentes e caráteres, não precisando nem de prazer físico ou de descanso em seus trabalhos. [V.20]

E isso é quase que completamente verdade. No entanto, parece-me que não há maior estímulo ao espírito de ação do que a imaginação humana. É essa centelha divina que põe em movimento as outras sensações e causas corpóreas; e desta faísca são geradas as chamas que cauterizam a alma. A ação pode ser possível na ausência de imaginação, mas nenhuma ação verdadeiramente grande jamais foi realizada sem ela. Nenhuma bota mais digna jamais chutou ao traseiro do homem hesitante. Devemos, então, voltar nossa atenção para aquilo que cultiva e apoia a imaginação.

Ninguém duvida que a imaginação é uma habilidade inata, um talento muito parecido com a capacidade de tocar um instrumento musical, praticar um esporte, falar, escrever ou qualquer outra coisa do tipo. Mas isso não significa que alguém não possa cultivar sua imaginação ou desenvolver quaisquer talentos que a Natureza tenha conferido a ele. Alguns terão mais, e outros terão menos: é assim que a natureza é, e é preciso ser realista sobre o que pode e o que não pode ser feito. Apesar disso, você descobrirá que com trabalho, prática e uma certa quantidade de humildade, um progresso incrível pode ser feito no desenvolvimento da imaginação. Vamos agora tentar descrever alguns princípios gerais sobre como isso pode ser feito.

Cuidado com a Saúde Física.  Nenhuma atividade mental de valor é tomada dentro de um corpo degradado e corrupto. Preguiça, lassidão, e inércia se combinam para desacelerar os reflexos, sugar a virtude masculina, e ossificar a mente. Mente e corpo não são separados, mas essencialmente um só. E se aceitarmos que os feitos da imaginação são uma atividade mental – o que, indubitavelmente, são -, então deve-se concluir que um corpo saudável é um pré-requisito essencial para uma imaginação produtiva. Note que não estou falando aqui daquelas almas infelizes que, embora sem culpa pessoal alguma, perderam a capacidade de funcionar de membros ou órgãos e se tronaram debilitados de alguma forma; ao invés disso, estou falando daqueles que negligenciam sua condição física, permitindo que seus corpos se tornem as latrinas de Hades, ao invés dos templos de Atena. Dieta pobre, nutrição inadequada, falta de exercício e hábitos corporais perniciosos são os verdadeiros culpados aqui. Portanto, antes que o nosso Argo possa zarpar para sua viagem, devemos restaurar nossa condição física para o seu estado adequado, o estado para o qual ela foi planejada pela Natureza.

A Experiência de Viajar. O conhecimento começa com os sentidos. Existe alguém que duvide disso? Um músculo se atrofiará se não for usado. Os sentidos são da mesma maneira. A percepção sensorial deve ser bombardeada com estímulos, da mesma forma que o físico Ernest Rutherford bombardeou suas telas de teste de laboratório com partículas para provar princípios físicos. Uma inundação de estímulos faz maravilhas a esse respeito. Há poucas maneiras melhores de conseguir isso do que a experiência de viajar para lugares desconhecidos. Devemos explorar, cutucar, penetrar e mergulhar no mundo do Desconhecido, e permitir que nossas sensibilidades hesitantes sejam confrontadas com o estranho, o não familiar, e o perigoso.

Isso terá como resultado a abertura de nossa percepção para coisas que previamente considerávamos impossíveis e para idéias antes impensáveis. Todas as viagens são explorações de uma forma ou de outra; os dois conceitos são intercambiáveis. O homem de ação deve literalmente se lançar em arenas desconhecidas e ver como ele responde. E quando eu digo “arena”, eu quero dizer precisamente isto: o mundo é um campo de batalha de sensação e compreensão, onde devemos lutar pela maestria, e tornar nosso, aquilo que até agora estivera além da nossa compreensão. O conhecimento não é para os tímidos.

A Experiência de Outras Atividades Físicas. Viagem e explorações não são as únicas atividades que descongelam a mente. Jogos, esportes, interações e relações sociais, e todas as atividades associadas a essas coisas fazem praticamente a mesma coisa, e nunca devem ser negligenciadas. Aqui, novamente, é o bombardeio dos sentidos que é o que estamos buscando. As atividades devem ser positivas; Eu não subscrevo a ideia de que os poderes da imaginação possam ser acessados de qualquer maneira significativa e sustentável através do uso de substâncias químicas ou bebidas alcoólicas. Parece-me que aqueles que advogam isso cometem o erro de confundir a vertigem da mente com a expansão do espírito: a intoxicação não é a iluminação, mas sua estimulação indisciplinada. A disciplina e o autocontrole devem atuar como o lastro de qualquer viagem de exploração, pois sua ausência faz com que o navio da mente flutue sem rumo sobre a água.

A Experiência de Ler e Estudar.  Ver o mundo através dos olhos de outra pessoa é uma coisa boa. Esta é uma das principais experiências advindas da leitura e do estudo. Entramos na mente do outro e aprendemos como ele interpreta o mundo; é, de certo modo, outra forma de estimulação. Mas é um tipo de estímulo mais refinado do que o que advém de viagens, jogos, esportes ou brincadeiras. As idéias podem ser descritas em todas as suas nuances. Pontos refinados de diferenciação podem ser expostos, discutidos e ponderados; e, ao fazê-lo, nosso viajante sensório ganha novas perspectivas e visões. Ele não pode deixar ficar com uma mente enriquecida e ampliada por essa experiência. Os olhos lêem as palavras e a imaginação fornece o resto. Alguns dos antigos romanos tinham uma visão negativa da ficção especulativa, aquelas fictae fabulae (“contos inventados”, era como eles chamavam tais esforços literários) que eles pensavam que pouco acrescentavam à educação de um homem. Nisso eles estavam enganados, e deveriam ter pensado melhor. Considere esta curta passagem do livro clássico de aventuras de Robert Louis Stevenson, Kidnapped, um verdadeiro triunfo da escrita imaginativa, em que o jovem David Balfour quase encontra sua morte na Casa dos Shaw, nas mãos traiçoeiras de seu tio:

Bem, eu cheguei perto de uma dessas curvas, quando, testando à frente como de costume, minha mão deslizou sobre uma borda e não encontrou nada além de vazio além dela. A escada não havia sido levada mais para o alto: colocar um estranho no meio da escuridão era mandá-lo direto para a morte; e (embora, graças aos relâmpagos e minhas próprias precauções, eu estivesse seguro o suficiente) o mero pensamento do perigo em que eu poderia ter estado, e a altura pavorosa da qual eu poderia ter caído, trouxe o suor sobre meu corpo e relaxou minhas articulações.

Nós quase podemos sentir as ondas de fúria e horror percorrem a estrutura de Balfour. Precisamos apenas ler a descrição dos eventos, e nossa imaginação fornece a emoção apropriada. Quantos de nós não suspeitamos, do fundo do coração, que nossos parentes planejavam nos fazer mal? Quantos de nós têm, com razão, sede de vingança contra aqueles que nos causariam dano físico? E assim o poder da imaginação trabalha com este propósito: satisfazer nossos desejos mais profundos e tornar real aquilo que antes era apenas desencarnado.

Disciplina e Coragem. Há um mal entendido comum  que a ativação da imaginação envolve- e mesmo necessita– de algum tipo espírito livre, fora da lei, que “faz suas próprias regras” e encontra “inspirações criativas” nas névoas induzidas por substâncias ou frivolidades de viagens do ego que não levam a lugar nenhum. Isto não é iluminação, mas ofuscamento. É um modo conveniente de evitar entrar em contato com verdades necessárias. Eu não sou um abstêmio; eu gosto de bebidas alcoólicas, mas não uso nenhum outro tipo de drogas. Leon Tolstoi, em seu ensaio Por que os Homens se Estupidificam?, (NT.: aparentemente sem tradução para o português, traduzi o possível título a partir do título em inglês) propôs um motivo pelo qual hoens se intoxicavam. Ele começa apontando que:

Toda vida humana, podemos dizer, consiste somente nestas duas atividades: (1) harmonizar as suas atividades com sua consciências, ou (2) esconder de si mesmo as indicações da consciência para poder continuar a viver como antes.

Os homens usam drogas, ele argumentou, para abafar a voz de suas próprias consciências. É uma maneira de evitar um confronto com a voz interior honesta. Essa foi a explicação única (NT.: no sentido de original) de Tolstoi. Ele era um místico, mas estava oferecendo uma verdade profunda. Podemos concordar ou discordar de Tolstoi, mas o fato é que o arquiteto da imaginação não pode ser um espírito indisciplinado e livre, esquivando-se das responsabilidades da vida, refugiando-se em embriaguez e indulgência excessiva em prazeres voluptuosos. Isso é vaidade, corrupção e devassidão, e indigno de um homem. Não: o arquiteto deve ser um homem de disciplina e ordem, um homem firme em suas convicções e um homem que compreenda a necessidade da virtude masculina para orientar e dirigir os assuntos da mente. O cultivo da imaginação não é algum tipo de fuga para a fantasia, mas uma intensa concentração na produção de alguma arte ou ciência.

Coragem e Convicção. Estes são os ingredientes finais do arquiteto. Todo o esforço criativo e imaginativo do mundo é de pouca utilidade se o arquiteto não tiver coragem de entregar seus resultados ao público. Muitos não estão dispostos a fazê-lo, com medo do veredito que pode resultar. Mas cada um deve se submeter ao trabalho do Destino nesses assuntos. Quando o dr. Samuel Johnson soube que uma de suas peças havia fracassado em Londres, ele foi calmamente filosófico sobre isso. Boswell nos conta que:

Quando perguntado como ele se sentia com a má sorte de sua tragédia, ele respondeu “Como o Monumento”; significando que ele continuava firme e imóvel como aquela coluna. E deixe que isso seja lembrado, como uma admoestação à genus irritabile [espécie irritável] de escritores dramáticos, que este grande homem, ao invés de mesquinhamente reclamar do mau gosto da cidade, aceitou sua decisão sem um murmúrio.

Que pudéssemos ter a  atitude do Dr. Johnson!  Mas, ao mesmo tempo, um homem deve se orgulhar de seu trabalho e acreditar com a mais firme convicção de que o que ele está fazendo é importante e durará para sempre. Sem essa devoção apaixonada, ele nunca será capaz de dar ao seu trabalho o sabor necessário para capturar a imaginação dos demais. Neste contexto, eu aprecio bastante a atitude tomada por [Lúcio Flávio] Arriano em seu livro História de Alexandre, o Grande, quando ele nos diz orgulhosamente que:

E essa é a razão pela qual embarquei no projeto de escrever essa história, na crença de que não sou indigno de deixar claro aos olhos dos homens a história da vida de Alexandre. Não importa quem eu seja que faça essa afirmação, eu não preciso declarar meu nome – embora tal nome não seja inaudito no mundo; Não preciso especificar meu país e minha família, ou qualquer posição oficial que eu possa ter ocupado. Em vez disso, deixe-me dizer isto: que este meu livro é, e tem sido desde a minha juventude, mais precioso do que o país, a família e o progresso público – de fato, para mim, este livro é tais coisas. E é por isso que me aventuro a entrar na companhia dos grandes mestres da literatura grega, pois Alexandre, sobre quem escrevo, era o grande mestre da profissão de armas. [I.12; tradução [para o inglês] por A. de Selincourt]

Este é o tipo de atitude audaz necessária para enfrentar e dominar um grande empreendimento. Ele não se esquivou do que sabia e pretendia fazer. Desde sua juventude, os grandes feitos de Alexandre havia capturado seu espírito e dominado suas atenções. Movido por elas, ele se preparou para escrever a história de Alexandre; então ele vestiu sua armadura, entrou na arena, e produziu. O arquiteto da imaginação projetou sua estrutura e a construiu sem se preocupar com a opinião ou reações desta ou daquela pessoa. Seu edifício ainda está de pé, até hoje.

Leia mais em Thirty-Seven:

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3 respostas para O Arquiteto da Imaginação

  1. Pingback: O Arquiteto Da Imaginação (Translation By Daniel Castro) | Quintus Curtius

  2. Eu te enviei um email, Daniel.

  3. Let me know if you received the emails I sent….

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