Michael Crichton Sobre as Virtudes Masculinas de Sean Connerry

por Quintus Curtius, o original está aqui.

Tradução por Daniel Castro.

Em suas memórias de 1988 Travels, o autor Michael Crichton lembra-se da época que ele passou com o ator Sean Connery durante as filmagens de The Great Train Robbery na Irlanda em 1978. Crichton, o famoso autor de Jurassic Park, Sphere, Congo, Disclosure, e algumas outras histórias populares, também era um diretor de filmes. Connery era a estrela de The Great Train Robbery, e Crichton claramente estava impressionado com o escocês vulcânico.  As anedotas que ele relaciona ao carisma masculino de Connery deixam claro que os homens hoje em dia podem aprender muito com ele.

Crichton primeiramente ficou assustado com a tarefa de ser um diretor.  “Um desejo secreto, de toda uma vida é conquistado. Eu sou um diretor de filmes internacional, filmando em localidades estrangeiras com grandes estrelas do cinema… Mas eu também estou secretamente aterrorizado. Este é apenas meu terceiro filme, eu realmente não sou um diretor experiente.  Eu nunca filmara no estrangeiro.  Eu nunca fizera um filme de época.  Eu nunca trabalhara com uma turma estrangeira… Para dirigir um filme você deve ser autoritário, e eu não me sinto nada autoritário.” No começo das filmagens, a produção estava afligida por diversos tipos de problemas.  O grupo era composto por irlandeses e britânicos, e havia tensões quem, nas palavras de Crichton, estavam “refletindo um antigo antagonismo.” Ainda pior, o grupo não tinha muita confiança em Crichton como diretor até que alguém trouxe seu primeiro filme, Coma, e o mostrou. As coisas melhoraram um pouco depois daquilo.

Mas foi trabalhar com Sean Connery que Crichton achou muito fascinante. Qualquer um que tenha visto Connery na tela ou em entrevistas sabe que ele exala aquela energia masculina arrepiante que sempre parece prestes a explodir do recipiente onde ele a guarda. Connery teve uma vida dura, cresceu pobre, mas trabalhou até chegar ao ápice durante anos de esforço contínuo.

No filme, Connery também concordou em fazer suas próprias cenas de ação, a mais perigosa delas consistia em andar sobre uma locomotiva de 1863, acelerando. Aqui Crichton nos conta mais sobre suas impressões de Connery.  Numa era como a nossa- tão necessitada de modelos de comportamento masculino positivo e exemplos vivos de comportamento masculino– as palavras de Crichton tomaram ainda mais importância, talvez, do que quando foram escritas lá em 1988. Tomadas em conjunto, essas pequenas reminiscências ilustram a máxima que a “virtude masculina,” como o historiado Salústio nos conta no prefácio de Conspiracy of Catiline, “é pura e eterna.”

Connery se joga no trabalho sem reservas. Ele é uma das pessoas mais memoráveis que já encontrei, tranquilo e sério ao mesmo tempo. Eu aprendi bastante por estar próximo a ele. Ele se sente bem consigo mesmo, e é direto e franco.  “Eu gosto de comer com meus dedos,” ele diz, comer com seus dedos num restaurante bacana, sem se importar. Você não pode embaraçá-lo com trivialidades. Comer é que é importante. Pessoas vêm pedir autógrafos e ele olha zangado. “Estou comendo,” ele diz severamente. “Volte depois.” Eles voltam depois, e ele polidamente assina seus menus.

Ele não guarda rancor a menos que ele queira. “Eu gastei muito de minha vida sendo miserável,” (NT.: psicologicamente) ele diz. “Então um dia eu pensei, estou aqui pelo dia, eu posso aproveitá-lo ou não. Eu decidi que deveria aproveitá-lo.”  Há esta qualidade sobre ele, aquele sentido de escolha e controle sobre si mesmo e seu humor. Isto faz dele alguém integrado, autoconfiante. O comentário mais comum sobre ele é “Este é um homem de verdade.”

Uma vez, num avião, uma mulher suspira, “Oh, você é tão masculino.”  Connery ri.  “Mas eu sou muito feminino,” ele insiste. E ele quer dizer isso; ele sente prazer nesse seu lado. Um mímico talentoso, ele gosta de recordar sozinho, atuando ele próprio em todos os papéis. Ele faz imitações espantosamente precisas de todos atores, incluindo Donald [Sutherland] e Lesley-Anne [Down], sua atriz principal.  Ele sempre parece se divertir consigo mesmo. Ele sente prazer em todos seus aspectos, todos seus desejos.

Eu não sou tão aberto, e ele me provoca. Uma vez, depois de uma filmagem, eu senti que seus gestos manuais eram um pouco afeminados. Eu quero uma nova tentativa, mas não sei como dizer a Sean o que precisa ser mudado. Como você diria ao 007 que ele está afeminado?

“Sean, na última gravação, você tinha uns gestos com as mãos…”

“Sim, o que tem? Eu pensei que foi bom.”

“Bem, uh, foi um pouco, uh, solto. Frouxo.”

Seus olhos se apertaram. O que você está tentando dizer?”

“Bem, poderia ser um pouco mais decidido. Mais forte, você sabe.”

“Mais forte…”

“Sim, mais forte.”

“Você está dizendo que eu pareço um maricas?” Agora ele está rindo, se divertindo com meu desconforto.

“Sim, Um pouco.”

“Então, simplesmente diga, cara!” ele ruge. “Simplesmente diga o que você quer! Não temos o dia todo!” E ele grava a cena de novo, com gestos diferentes.

Depois ele conversa a sós comigo. “Você sabe,” ele diz, “você não faz nenhum favor fazendo rodeios. Tentar nos fazer deduzir o que você quer dizer. Você pensa estar sendo polido, mas está sendo simplesmente difícil. Diga o que você quer e prossiga com isto.”

Eu prometo que tentarei. E eu melhoro, mas nunca consigo ser tão direto quanto ele é. Ele diz “Você sempre deve dizer a verdade, porque se você diz a verdade, isto se torna um problema da outra pessoa.”

Ele segue seu próprio ditado; ele sempre diz a verdade. Sean parece viver numa espécie de momento atual, respondendo aos eventos com uma imediatez não afetada que não se importa com o passado ou futuro. Ele é sempre genuíno.  às vezes ele elogia pessoas que eu sei que ele não gosta. Às vezes ele explode com amigos íntimos. Ele sempre conta a verdade conforme ele vê naquele momento, e se alguém não gosta, o problema é dele…

As filmagens começam. Sean percorre o trem. Eu sinto um odor forte e acre. Eu sinto uma dor forte no topo de meu couro cabeludo. Eu percebo que meu cabelo está em chamas devido às cinzas da locomotiva. Eu estou freneticamente batendo em meu cabelo, tentando apagar o fogo… Enquanto faço isso, Sean pula no carro mais próximo, tropeça, e cai. Eu penso, Jesus, Sean, não exagere para fazer parecer perigoso. Ele está carregando uma trouxa de roupas, um ponto de estória. Ele larga as roupas conforme cai e eu percebo que Sean nunca faria aquilo, que ele deve realmente ter caído… Eu tiro as cinzas de minha cabeça e a câmera gira. Nós fazemos a cena.

Depois nós paramos o trem; todo mundo sai. [Connery] tem um corte feio em sua pele e está sendo atendido. “Tudo bem contigo, Sean?” Ele olha para mim. “Você sabia,” ele diz, “que seu cabelo estava pegando fogo? Você deveria ser mais cuidado lá.” E ele ri…

Um dia, depois do almoço, Sean diz, “Vou embora no fim do dia.”

“O quê?”

“Não aguento mais o trem,” ele diz monotonamente. “Acabou. Estou voltando para Dublin, tirar um cochilo.”

Nós ainda temos três dias de filmagens programados. EU não acho que precisaremos deste três dias, mas sinto que temos pela frente pelo menos mais um dia inteiro de trabalho. Por que ele está desistindo?

“Já não aguento mais esse maldito trem,” ele diz… E isto é tudo o que ele dirá. Ele vai embora no dia seguinte, dirigindo de volta para Dublin. Na manhã seguinte, filmamos algumas cenas finais, pontos de vista e assim por diante. Estou em cima do trem, com um dublê e um operador de câmera. Estamos indo muito rápido. EM altas velocidades, o trem, balança e treme erraticamente. É enervante.

E subitamente, num instante, eu não aguento mais o trem, também. Os túneis já não são divertidos, o fios suspensos não são um desafio mais, os choques dos trilhos e o vento congelante não são estimulantes mais. Era simplesmente perigoso e exaustivo e eu queria parar de vez e sair do trem. E eu percebo que foi isso que aconteceu a Sean no dia anterior. Ele teve o suficiente e soube quando parar.

Estas pequenas memórias sobre Sean Connery são vívidas e reveladoras.  Plutarco uma vez disse que uma pequena anedota sobre a vida de uma homem pode ser mais ilustrativa de seu caráter do que seu envolvimento em algum acontecimento histórico. Eu vi um vídeo dele recentemente, filmado em meados dos anos 2.000. Connery é confrontado por alguns repórteres impertinentes, e lhes diz exatamente o que ele pensa deles e sobre as perguntas feitas. Quem quer que tenha feito esse vídeo deu a ele um título injusto; Connery não está sendo “rude” ou “agressivo,” mas simplesmente sendo direto e curto. É um comentário triste sobre nossa sociedade que ser direto e honesto seja visto como “agressivo.” Como todos cavalheiros, ele é polido se tratado com cortesia, mas responderá na mesma moeda se desrespeitado.

Nossa era sente muito a falta de homens como este; homens que podem liderar pelo exemplo, que não são intimidados pelo mundo, homens que não procuram brigas mas lidam com aqueles que os provocam. Nós precisamos de Sean Connery, e homens como ele, mais agora do que nunca. Que ele esteja sempre entre nós.

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