Homens das Cavernas Morriam Jovens, Então Porque Eu Deveria Comer Paleo?

por David Sciola, o original está aqui.
Tradução por Daniel Castro.

Muitas pessoas ainda aceitam uma visão Hobbesiana do homem pré-histórico – que a vida era “solitária, pobre, viciosa, brutal e curta”.
Todos nós vimos representações em desenhos animados e filmes de selvagens descabelados grunhindo, balançando porretes, cortando carne crua de um fêmur gigante com seus dentes e puxando mulheres pelo cabelo.
Mas de acordo com o psicólogo evolucionário Dr. Christopher Ryan, esta ‘Flintstonização’ do homem paleolítico é injusta e simplesmente errada.
Ryan argumenta que nossos antepassados caçadores coletores na verdade eram bem civilizados. Eles eram bem cuidados, altamente sociais, criaturas que amavam, riam, se divertiam, e provavelmente eram muito mais felizes no sentido primal do que o homem moderno médio que foi  ‘civilizado até a morte’ (Ryan, 2014).
Uma vida de caçador coletor era necessariamente sobre viver no momento. Numa tribo nômade, possessões materiais eram um fardo. Acumular terra, coisas, ou poder simplesmente não era um objetivo. Comunidade era tudo. Sua vida literalmente dependia de seus colegas de tribo. Tudo era compartilhado, incluindo a criação das crianças. Não havia estado, possessão de terras, impostos ou cercas. Um sonho hippie! (NT.: Na verdade tudo não é tão simples. A leitura de The World Until Yesterday explora diversas diferenças entre as culturas de tribos modernas de caçadores coletores.)
De acordo com Ryan, o caçador coletor médio somente ‘trabalhava’ poucas horas por dia, e gastava o resto de seu tempo relaxando, se conectando – jogando, dormindo, fazendo sexo, construindo relações, vivendo.
Certamente haviam muitos tempos difíceis com o clima, fome, machucados, falta de medicamentos, guerra e animais selvagens que potencialmente poderiam matá-lo, mas no geral a vida não era tão ruim. Certamente não era solitária, brutal e pobre.
Um membro da tribo Hadza

Espalhadas através da literatura contemporânea sobre tribos de caçadores-coletores estão incontáveis anedotas de felicidade e alegria inexplicáveis nestas tribos. Ser humano significa ter prazer com coisas simples – comida, abrigo, companhias, pertencimento.

A sociedade moderna se tornou tão complexa e ainda assim tão trivial e separada de nossas necessidades básicas que a maioria das pessoas em sociedades desenvolvidas precisam de estímulos constantes, distração, intervenção farmacêutica, drogas e álcool ou algum outro vício (seja exercícios ou TV por assinatura) apenas para aguentar, sem mencionar ser “feliz”. Realmente parece que quanto mais ‘civilizados’ nos tornamos, menos felizes nós somos.

Quando sua maior ansiedade no dia é não conseguir 40 likes no seu último post em uma mídia social (i.e. um medo trivial) Você acaba ficando mais neurótico e menos feliz do que quando seu maior medo no dia é ser atropelado por um mamute lanoso (i.e. um medo real).

Agora eu não quero romantizar a época paleolítica. Mesmo que eu goste muito do ar livre e entenda a imensa satisfação de voltar às coisas básicas de vez em quando eu sou um cara urbano, um homo sapiens domesticus fragilis domado.
Comparar a mim a um caçador-coletor é como comparar um Chihuahua tremendo numa bolsa de marca a um lobo selvagem no meio do Alasca.
Eu não estou querendo uma existência de caçador-coletor. Eu sequer penso que deveríamos tentar imitar ou replicar aspectos daquela era, ao contrário de alguns fanáticos paleo por aí.

Eu quero dizer, se você quer caçar um pouco de sua comida, fazer seus calçados de couro de veados e ir para a cama no pôr do sol, isto está tudo bem para mim mas eu fico feliz em ser um cara da geração milenial com um iPhone numa mão, e salmão selvagem embalado disponível em meu supermercado de 7 às 22 horas sete dias por semana.

Eu não digo que minha vida urbana me deixa feliz, mas eu prefiro ser parte desta sociedade bagunçada do que um excluído, estranho sem qualquer comunidade a pertencer.

Então, sim, eu sou “paleo”, mas somente no sentido de que eu uso um molde de trabalho de saúde ancestral para ter informações sobre minhas escolhas nutricionais. Eu não estou de nenhum modo tentando imitar um estilo de vida caçador-coletor. Mais sobre isto depois.
O que eu discordo veementemente, porém, é o argumento ignorante de que homens das cavernas morriam jovens, então porque deveríamos comer como eles?

Existem dois grandes erros nesta lógica.

Primeiramente, homens das cavernas não morriam tão jovens. Pessoas continuam citando uma expectativa de vida entre 25 e 40 anos na era paleolítica. Isto é altamente enganoso. Sim, a idade ‘média’ era bastante baixa se você incluir a alta taxa de mortalidade infantil. Mas a mortalidade infantil sempre distorceu a expectativa de vida para baixo até tão recentemente quanto o século XX… não muito depois de quando percebemos que provavelmente seria uma boa ideia lavar as mãos antes de partos de bebês!

Durante o paleolítico superior, a expectativa de vida ao nascimento era de 32 ano (Kaplan, 2000). Mas uma pessoa de 15 anos – que passou pela infância até a adolescência – poderia esperar viver mais 39 anos, até a idade de 54 anos.
Compare isto à era romana clássica quando a expectativa de vida era entre 20 e 30 anos e aos 10 anos alguém poderia esperar viver mais 35, até os 45 anos (Frier 2001).
Mesmo no começo do século XX a expectativa de vida no nascimento era somente de 31 anos… menos do que no paleolítico superior! Então mesmo por esta medida crua é injusto acusar o paleolítico como um período de vidas particularmente curtas quando de fato a expectativa de vida sempre foi baixa até o último século.
Então mesmo usando médias básicas para extensão de vida nossos ancestrais paleolíticos estão na verdade tão bem, se não melhor do que romanos antigos ou britânicos medievais. Mas caçadores-coletores realmente caíam mortos aos 40 anos durante uma caçada a um mamute ou muitos viviam muito além disto?
Bem, uma estatística mais pertinente a olharmos do que a média de duração de vida é a moda. A moda é o valor que ocorre mais frequentemente num conjunto de dados.

Por exemplo: [0.3, 0.7, 1, 1, 2, 4, 7, 7, 7, 9]. A média é 3,9, enquanto a moda é 7. Grande diferença.
O estudo sobre longevidade mais conhecido sobre tribos de caçadores-coletores concluiu que a idade modal entre diversas tribos pelo mundo variava de 68 a 78 anos de idade, e no geral era de 72 anos (Gurvan, 2007).

Isto significa que, principalmente, se você não morresse na infância ou por infecção, doenças, guerras ou caísse de um abismo na escuridão da noite, então um caçador-coletor saudável poderia esperar viver até uma respeitosa idade avançada, mesmo para os padrões modernos globais.

Então essa noção de homens das cavernas caindo mortos aos 30 anos é bobagem. É um mito.
O segundo grande erro no campo “tentar comer como um homem das cavernas é estúpido” é que a dieta paleo NÃO é sobre tentar replicar um dieta dos homens das cavernas.  Eu martelei tanto isso que meus vizinhos estão reclamando de barulhos constantes com o senhorio.

Mas meu martelar isso não consegue competir como argumento ignorante ressoando na mídia seus conselhos comuns de “coma uma dieta balanceada com pouca gordura e grãos saudáveis para o coração” por comentaristas em blogs, dietistas e nutricionistas.

Você os conhece. Eles falam assim: tentar comer como um homem das cavernas é estúpido e se você não deveria querer viver como eles já que eles caíam mortos antes de serem velhos o suficiente para terem doenças cardíacas de toda a carne vermelha que comiam, e eram feios e estúpidos e arrastavam as mulheres pelo cabelo, blá, blá, blá.
Fale sobre Homo sapiens ignoramuses!

A dieta paleo não é uma recriação ou replicação de algum homem das cavernas imaginários de 30.000 anos atrás.

Ao invés, a dieta paleo é um molde de trabalho para otimizar a nutrição moderna olhando para nosso passado e ponderando sobre o que comemos durante 98,5% de nossa evolução antes de a agricultura chegar e mudar tudo.

E porque faríamos isto? Bem, de toda a pesquisa que foi feita no último século em sociedades de caçadores-coletores – tanto contemporâneas quanto antigas – e olhando para algumas tendências alarmantes de saúde moderna existem algumas evidências fortes sugerindo o seguinte:

  • Caçadores-coletores geralmente tinham densidade óssea, estrutura, estatura, força e robustez geral superiores a humanos agrícolas modernos (Ryan 2014).
  • Caçadores-coletores aparentemente não sofriam das modernas ‘doenças da civilização’ como obesidade, diabetes ou doenças cardíacas. Não podemos dizer que elas definitivamente não existiam, mas eram raramente, ou nunca, observadas (Cordain, 2010).
  • No advento da agricultura a saúde humana caiu bruscamente: a estatura diminuiu, doenças infecciosas proliferaram, a mortalidade infantil aumentou, a expectativa de vida caiu e a desnutrição eram disseminada (Nicholson, 1999).
  • Enquanto conseguir combater os males acima com tecnologias como saneamento público, fortificação de comidas e remédios modernos, nossa saúde coletiva piorou novamente nas últimas décadas.
  • As epidemias modernas de obesidade, diabetes e doenças cardíacas estão crescendo. Hoje um a cada quatro americanos têm alguma forma de doença cardíaca. Em 2050 se prevê que um em cada três adultos americanos terão diabetes (CDCP, 2015).
  • A expectativa de vida nos EUA pode estar em declínio (Olshansky, 2005).
  • Parece cada vez mais óbvio que a industrialização e comercialização de nossa comida desde meados do século XX foi um grande culpado no declínio de nossa saúde. Quanto mais processadas, adulteradas e artificiais nossas comidas são, mais gordos e doentes nós ficamos.
  • Uma dieta de comidas animais e vegetais integrais, reais, não processadas, orgânicas, selvagens, cruas, alimentadas com grama, não geneticamente modificadas, não concentradas, sem aditivos, locais, frescas e saudáveis é claramente o melhor modo de comer para prosperar e evitar doenças preveníveis que acabam matando a maioria de nós.

Agora francamente, querido leitor, eu não me importo como você chega à sua dieta saudável, ou em no que esta dieta se constitui. Desde que você esteja melhorando sua saúde e esteja funcionando para você isto é tudo que importa.

Se você não gosta de animaizinhos bonitinhos sendo mortos para que você obtenha sua maravilhosa nutrição e prefere comer quinoa (empobrecendo bolivianos) e leite de amêndoas (piorando a seca na Califórnia) para dar energia a sua seção de 90 minutos a 40,6ºC de Yoga Bikram (contribuindo para o aquecimento global) então poder para você!

Existem muitos caminhos para uma saúde melhor. NENHUM DELES É PERFEITO. Então você pode pegar suas questões de sustentabilidade, escrevê-las num pedaço de papel reciclado, e queimá-las. Homo sapiens sustainabilis hypocritis.
 

Conforme vocês sabem eu sigo um molde paleo porque ele faz sentido para mim. Evitar produtos animais não faz sentido para mim. Comer muitos carboidratos não faz sentido para mim.
Então eu foco em gorduras saudáveis, muitos vegetais que crescem acima do solo, algumas raízes e tubérculos, algumas frutas e bagas, frutos do mar selvagens, alguma carne – de preferência de animais alimentados com grama e não em fazendas industriais. Eu como um pouco de laticínios fermentados integrais. Eu evito rigidamente leite, glúten e óleos vegetais e de sementes.
Mas eu não sou dogmático e certamente consumo algumas comidas neolíticas. Eu bebo vinho, tequila, vodca, e às vezes cervejas sem glúten. Eu como arroz branco. E às vezes até tortinhas de milho, ou um sorvete não desnatado de vez em quando.

E se a Polícia Paleo tem problemas com minha impureza eles podem se danar porque eu sei que minha dieta é 90% incrível. E os outros 10% eu me permito coisas que são ruins para minha saúde mas são divertidas – como beber algumas Old Fashions ou sair à noite até 4 da manhã.

Você vê que a vida não foi feita para ser “solitária, pobre, viciosa, brutal e curta”. Não era assim para nossos ancestrais paleolíticos e não deve ser assim para nós.
Ser paleo não é sobre tentar ser um homem das cavernas fodão, atirador de lanças, carregando pedras. Não é sobre criar a dieta perfeita sem grãos, glúten e leguminosas e mantê-las 100%. Mas evitar a maioria das comidas lixo industriais para prevenir que você se torne o ocidental tipicamente gordo, doente e quase morto.
Americanos modernos podem ter uma expectativa de vida maior que nossos ancestrais das cavernas. Mas não necessariamente muito maior – atualmente ela é 78 anos (World Bank, 2015). E quando você considera a qualidade do final da vida de seu americano (ou australiano) médio é bastante pobre hoje em dia podemos dizer que não avançamos tanto quanto pensamos.
Quatro de cada 5 americanos sofrem de pelo menos 4 doenças crônicas aos 67 anos de idade (AARP, 2015). A maioria usa intervenções farmacêuticas e médicas para prolongar uma vida de merda por alguns anos a mais, muitas vezes em clínicas de cuidados a idosos, somente para sucumbir no fim das contas a complicações de doenças metabólicas como diabetes, cardíacas ou de Alzheimer.
As boas noticias são que estas doenças são preveníveis fazendo-se as escolhas corretas de estilo devida ao longo do tempo, e especialmente de nutrição. E o melhor jeito de otimizar a nutrição é focar em uma dieta de comidas reais e integrais… como os Flintstones.
Referências
AARP (2015). ‘Chronic Conditions Among Older Americans’: http://assets.aarp.org/rgcenter/health/beyond_50_hcr_conditions.pdf
Christopher Ryan, PhD (2014): Tangentially Speaking Podcast: http://chrisryanphd.com/tangentially-speaking/
Ryan, C., & Jethá, C. (2010). Sex at dawn: The prehistoric origins of modern sexuality. New York: Harper.

Frier, Bruce W. (2001). “More is worse: some observations on the population of the Roman empire”. In Scheidel, Walter. Debating Roman Demography. Leiden: Brill. pp. 144–145.

Gurven & Kaplan (2007). ‘Longevity Among Hunter-Gatherers: A Cross-Cultural Examination’: http://www.anth.ucsb.edu/faculty/gurven/papers/GurvenKaplan2007pdr.pdf

Hillard Kaplan, Kim Hill, Jane Lancaster, and A. Magdalena Hurtado (2000). “A Theory of Human Life History Evolution: Diet, Intelligence and Longevity”Evolutionary Anthropology 9 (4): 156–185.
Loren Cordain (2010), The Paleo Diet: Lose Weight and Get Healthy By Eating the Food You Were Designed to Eat,John Wiley & Sons.

(OFR) Obesity Facts and Resources. In Campaign to End Obesity (accessed September 2013).
Olshansky et al. (2005) ‘A Potential Decline in Life Expectancy in the United States in the 21st Century’: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMsr043743
Timothy M. Ryan and Colin N. Shaw (2014). ‘Gracility of the modern Homo sapiens skeleton is the result of decreased biomechanical loading’, PNAS 2015 112 (2) 372-377
U.S. Centers for Disease Control and Prevention, (2010). Number of Americans with diabetes projected to double or triple by 2050. [Press Release] (accessed March 2011).
Ward Nicholson (1999), ‘Longevity and Health in ancient Paleolithic v Neolithic Peoples’: http://www.beyondveg.com/nicholson-w/angel-1984/angel-1984-1a.shtml
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2 respostas para Homens das Cavernas Morriam Jovens, Então Porque Eu Deveria Comer Paleo?

  1. Pingback: É Hora de se Firmar, Caras. | Nuvem de giz

  2. ARÃO DE SOUZA MELO disse:

    boa,cara!

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