Sobre Esquecer Ofensas e Insultos

por Quintus Curtius, o original está aqui.

Tradução por Daniel Castro.

É uma boa coisa para nós cultivar nosso espírito agressivo. A vida requer participação, e a participação demanda resistência e adrenalina; e aquele que entra na batalha com um espírito de submissividade tímida provavelmente conseguirá o que pede. Tudo isso é verdade. Porém a resistência paciente do burro de carga pode ser tão valiosa quanto a fúria explosiva da pantera: aquele triunfa ao ser capaz de resistir, enquanto esta pode ficar fatalmente exausta após sua explosão inicial de energia se exaurir. A vida mais vezes demanda a habilidade de absorver punições do que a de inflingi-la aos demais.

Central para tal ideia de resistência é nossa habilidade de cultivar uma pele grossa. Nós somos diariamente cercados por distrações, bobagens, tolices, e estupidez. Encontramo-nos atacados, atormentados e acossados por patifes e críticos inferiores* de todas as formas e tamanhos. A cultura de busca por atenção em que vivemos garante-nos um fluxo constante de tal exposição e tratamento. Isto não podemos mudar; mas podemos mudar nossas reações a ela. Parece a mim – ou pelo menos isto é verdade em minha própria vida– que é vitalmente importante cultivar uma habilidade de “deixar coisas que não são importantes no grande plano das coisas. Temos de aprender a distinguir o que é importante, do que não é importante. Desconsiderações e insultos irão gerar o fogo da ira: mas temos de aprender a distinguir as batalhas que importam das que não importam. Isto leva tempo, experiência, e o cultivo de uma grandeza de alma (magnitudo animi), sobre o que eu já falei bastante no passado, especialmente no livro On Duties.

Nem toda ofensa pode ser retificada.  Nem toda injustiça pode ser consertada. Gastar nossas vidas curtas mexendo e estressando-nos sobre cada desfeita nos deixará na verdade sem elas. Nenhum homem jamais ganhou por litígios prolongados; e nenhuma nação jamais se beneficiou de guerras prolongadas: e tais são as palavras de alguém que tem sido tanto um advogado quanto um militar. Na vasta maioria das situações, quanto mais cedo um conflito for resolvido, é melhor. Isto é assim mesmo que ambos os lados saiam sem se sentirem completamente satisfeitos. De fato, é minha experiência que o acordo ideal é aquele que deixa ambos os lados levemente insatisfeitos. Cada uma das partes não teria tudo o que queriam, e isto é uma medida de justiça. O burro de carga é sábio nos caminhos da resistência e da auto-preservação. Ele absorverá um pouco de punição, e nunca agirá por malícia. Ele sabe quando abaixar a cabeça, e seguir em frente. Ele é sábio em sua conservação de energia: ele não perderá seu tempo e energia em coisas que lhe dão retornos decrescentes.

Considere alguns exemplos deste princípio. O rei Pirro do Épiro (318 A.C.–272 A.C.) era conhecido por sua habilidade como general e como um administrador competente. Ele também era sábio sobre os modos dos homens, sabendo distinguir o que era importante do que não era. O autor romano Valerius Maximus nos conta (no primeiro volume de seu Feitos e Ditos Memoráveis) uma anedota sobre o rei que revela sua qualidade de indulgência.

Pirro uma vez ouviu que alguns oficiais da cidade de Tarentum (no sul da Itália) haviam falado maliciosamente sobre ele em algum banquete.  Então ele invocou alguns destes oficiais e os questionou sobre seu comportamento. Ele perguntou a eles se eles realmente haviam dito o que ele escutara que haviam dito. Houve uma longa pausa; ninguém queria responder ao rei, temendo qual sua reação poderia ser. Finalmente, um deles falou (um que tinha mais honestidade que prudência!). Ele disse:

Se nosso vinho não tivesse acabado, as coisas que foram trazidas a você teriam sido besteiras e piadas, comparadas ao que nós teríamos dito sobre você.

[Nisi vinum nos defecisset, ista quae tibi relata sunt, prae iis quae de te locuturi eramus, lusus ac iocus fuissent.]

Pirro, ao escutar isto, caiu em gargalhadas. E assim os demais fizeram, e tudo foi perdoado. Ele demonstrou ser capaz de tolerar críticas inofensivas. Através de tal magnitudo animi (grandeza de alma), ele foi posteriormente capaz de conquistar totalmente o povo de Tarentum. Eles começaram a “agradecê-lo quando sóbrios e rezar por ele quando ébrios.”

Outro exemplo deste tipo de humanidade quente é encontrado numa anedotas (também contado por Valerius Maximus no volume 1) sobre o tirano ateniense Pisistratus. Diziam que ele tinha uma filha muito bonita e ocasionalmente andava com ela pela cidade. Um jovem homem apaixonado uma vez foi até sua filha, e dominado pela emoção, tentou beijá-la. A esposa de Pisistratus não ficou impressionada; ela pediu ao tirano que o jovem fosse executado devido à sua impudência. Ele riu e disse,

Se executarmos aqueles que nos amam, o que deveremos fazer com aqueles que nos odeiam?

[Si eos qui nos amant interficiemus, quid iis faciemus quibus odio sumus?]

E tais certamente devem ser contadas como palavras sábias. No espírito da indulgência, esta habilidade de deixar as coisas para lá, que nós perdemos em nossa cultura atual.  Nós atualmente amamos sermos ofendidos por todos insultos reais ou imaginários; nós tecemos teias de aranha de intenções conspiratórias da parte de nossos adversários, e sentimos a necessidade de anunciar nossas mágoas ao universo. Parece-me que há certa crueldade, uma verdadeira falta de humanidade, neste tipo de mentalidade.

Neste mesmo espírito outra história sobre Pisistratus é contada por Valerius. O tirano estava uma vez jantando com sua família e amigos. Presente estava um homem chamado Thrasippus; intoxicado e agitado, ele começou a criticar o líder ateniense, chocando os demais presentes. Pisistratus não levou o abuso a sério, e não respondeu na mesma moeda. Thrasippus eventualmente parou, mas depois tentou ir embora do banquete. Pisistratus viu isto e tentou pará-lo, pensando que o homem estava envergonhado pelo que aconteceu e tentou sair por isso. Thrasippus então cuspiu no rosto de Pisistratus, para o espanto daqueles que presenciaram a cena. Os filhos do tirano tentaram retaliar, mas então ele disse para eles sentarem. No dia seguinte, quando os efeitos do vinho haviam terminado e ele percebeu o que tinha feito, Thrasippus foi dominado por um desejo de se matar. Mas Pisistratus o visitou em pessoa, assegurando a ele que tudo fora perdoado. Deste modo ele demonstrou sua grandeza de alma.

Na vida seremos sempre aptos a descobrir algo para nos irritamos sobre, se procurarmos o suficiente. Nós sempre seremos capazes de sentirmos raiva e dor, se cutucarmos nos lugares apropriados. Mas aprender a arte de “deixar as coisas para lá” nos dá liberdade. Isto nos permite ficarmos livres das correntes da emoção. Existem tempos em que devemos fazer algo, e tempo quando não devemos fazer nada. Não há necessidade de consertarmos todas as desfeitas, ou alisarmos cada dobrinha em nossas vestimentas; vamos aprender a sabedoria de vivermos com vestimentas amassadas de vez em quando. Talvez nós descobriremos que isto é um sentimento libertador.

*NT.: no original, ankle-biters. Literalmente, significaria mordedores de tornozelos, com o significado de alguém tão mais baixo que só conseguiria criticar (por morder) as partes mais baixas do criticado (pelos tornozelos).

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3 respostas para Sobre Esquecer Ofensas e Insultos

  1. Muito obrigado pra este traducao, Daniel. Compartilhei isso no meu twitter e facebook; o q e seu endereco de email? O endereco q eu tenho nao esta funcionado….vc pode me enviar um email pra: qcurtius@gmail.com

  2. Pingback: A Portuguese Translation Of “On The Forgetting Of Offenses And Insults” | Quintus Curtius

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