Os Absortos

Por Quintus Curtius, o original está aqui.

Tradução por Daniel Castro

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Sêneca tinha uma palavra para aqueles consumidos com a perseguição a riquezas materiais, negligenciando tudo o mais.  Ele os chamava de occupati, o particípio do verbo occupare.  Eles ficavam tão ocupados nesta busca obsessiva e única pelos fantasmas da prosperidade que eles nunca reservavam tempo para eles próprios. A palavra occupati significa absorto, preocupado ou obcecado. E eu penso que esta palavra é uma descrição apropriada.

Todos conhecemos esse tipo de pessoa. Eles pensam que entendem tudo sobre o mundo. Isto é, até estarem em um cama de hospital devido a um ataque cardíaco. Eles gastaram todo seu tempo acumulando riquezas, sem pensar em como aproveitá-las. O quão mais alto eles sobem na escada econômica, mais furiosa fica a busca pela riqueza e prazer se torna, até que eles chegam próximos ao topo. E então vem a queda: que sempre vem. E quanto maior a altura, maior a queda. Marilyn Monroe– uma observadora muito mais astuta do comportamento humano do que se pensa– uma vez disse, “a gravidade alcança a todos nós.” Ela alcança.

Geralmente não faz bem tentar explicar coisas para Os Absortos. Eles vão rir como o gato de Cheshire ri para você, arrogantes no conhecimento de que é você quem está iludido. Filosofia, eles pensam, é uma perda de tempo. Tudo o que importa é acumular o máximo de coisas que você puder, e isso é tudo. Tudo o mais é conversa. E quando eu escuto esse tipo de fala, eu não respondo. Porque eu sei que o mundo irá ensiná-los muito mais efetivamente do que eu poderia.

Não é necessário dizer que Os Absortos não entendem o conceito de tempo. O tempo tem três divisões: passado, presente e futuro. Todas elas têm seus propósitos. Os Absortos não leem muitos livros, e por isto têm pouco senso de história. E não ter conhecimento do passado é como andar pela vida com uma venda nos olhos. Você não entende a real profundidade das coisas, ou como elas se interrelacionam. O presente é de vários modos nada exceto o passado enrolado em um pacote grande que carregamos em nossas costas. Às vezes você tem de parar e ver o que está dentro de sua mochila.

Então o primeiro passo para sair das fileiras d’Os Absortos é ler. Você quase certamente ouviu o ditado que não se pode escolher sua família ou local de nascimento. Isto é verdade. Mas podemos escolher que livros lemos. Se quisermos estar cercados de coisas boas, temos de ler bons livros. Livros são máquinas do tempo. Eles nos transportam para séculos ou milênios de experiência; nós podemos conversar com as maiores mentes que jamais viveram e tomá-las como nossas professoras. Podemos explorar os mares do Sul, as regiões Árticas, as ferventes florestas Amazônicas, as águas misteriosas do Nilo, cuja fonte está no mais profundo coração da África. Nós podemos ficar lá, ao lado de sua margem túrbida, e escutar os juncos balançarem no vento, conforme batem uns nos outros.

Estes grandes homens do passado podem nos ensinar tanto como viver quanto como morrer. Nós passamos a perceber que a mercadoria mais valiosa é o tempo, e que desperdiçá-lo em buscas inúteis é o ápice da tolice. Desperdiçar os finais de semana em ócio então se parece mais com um crime do que com mal julgamento. É porque nosso tempo aqui é tão breve que devemos fazer o máximo de cada momento. Associar-se com palhaços ou tolos não faz nada para avançar nesse propósito. Nós não podemos escolher nossa família ou local de nascimento, mas certamente podemos escolher nossos amigos em livros e na vida real.

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Os Absortos nunca percebem a onipresença da Morte

Minhas estantes de livros estão cheias de amigos íntimos, eu tenho orgulho em dizer; eles são todos amigos de valor provado. Eu falo com eles regularmente. E pratico o mesmo princípio com amigos de carne e osso. Eu não gosto de perder tempo com más pessoas; elas não fazem nada além de drenar sua energia e não oferecem nada em troca. Os Absortos só pensam em si mesmos e no que você pode fazer pelas suas buscas frenéticas de seus objetivos cada vez mais distantes. Eu certamente posso escolher meus amigos dispostos em minhas estantes, e eu sempre escolho os melhores. Eles não me incomodam ou oprimem com besteiras sem sentido.

Um dos melhores conselhos do filme Rocky original foi dado quando Sylvester Stallone tentou aconselhar uma jovem garota de sua vizinhança. Ela andava com um grupo de garotos sem perspectiva. Ele disse a ela, ande com pessoas boas, e você fará coisas boas. Mas ande com idiotas e você não irá a lugar algum. Se você se lembra, ela não gostou de escutar esse conselho. Os Absortos só respondem ao som de seu próprio desejo.

O outro modo de sair do poço d’Os Absortos é ter o tipo correto de trabalho. Para mim não faz diferença o que um homem faz. A coisa importante é que seu trabalho dê a ele os meios para se manter de modo razoável, e que lhe permite algum lazer. Agora, quando eu digo lazer, eu não digo isso no sentido de autodesperdício, de procurar coisas autodestrutivas, prazeres ilusórios; eu quero dizer lazer para gastar algum tempo em pensamentos especulativos. Para ser livro, um homem deve ser capaz de pensar.

É por essa razão que Os Absortos são tão escravizados. Eles gastam todo seu tempo e esforço na esteira dos bens materiais. Eles gastam todo seu tempo durante as horas que estão acordados se escravizando sem um bom motivo. No fim do dia eles não são nada além de cascas gastas e secas. Não há nada mais neles. Eu não digo que um homem não deva tentar alcançar o topo de sua profissão; eu não estou dizendo que a riqueza é necessariamente má. Longe disso. Eu aplaudo-a e tenho sido feliz em minha própria vida de ter conseguido sucesso material. Mas a riqueza não é nada a menos que você a coloque a serviço de objetivos sábios e prudentes. E mesmo quando você a tem, você percebe que ela te cansa aos poucos mas certamente: você gasta muito tempo a preservando e mantendo, e se preocupando com sua perda.

Os Absortos também pecam contra o próprio tempo. Nós já observamos que o tempo é passado, presente e futuro. Os Absortos vivem somente no presente, sem pensar no passado ou futuro. O passado para eles é irrelevante; e o futuro, eles acreditam, cuidará de si mesmo. E conforme a vida e suas dificuldades inevitáveis chegam a eles, eles ficam espantados. Somente muito tarde eles descobrem a verdade das coisas. Alguns deles nunca o fazem, Algum homens não querem ser edificados.

O trabalho ideal para mim é o trabalho que um homem gosta de fazer, o traz uma renda razoável, e o dá a oportunidade para pensamentos especulativos. Os Absortos são do jeito que são porque eles nunca pensam naquilo que fazem, seja por escolha ou necessidade. Eles nunca pensam sobre a vida e sobre como ela deve ser vivida. E eles certamente nunca pensam sobre morte, que é muito mais próxima e íntima em nossas vidas do que qualquer um de nós se preocuparia em admitir.

Mas é assim que as coisas são. Os absortos têm muito em comum, de fato, com o escravo. Escravos são sempre mantidos ocupados. Escravos nunca são encorajados a ler: a maioria era mesmo proibida de aprender a ler. E há uma razão para isso. A razão é que um escravos pensante é perigoso. Um homem que pensa – que pode usar seu cérebro – é um homem que eventualmente começará a fazer perguntas perigosas. E essas perguntas podem levar à respostas subversivas.

Eu falava a alguém recentemente que tentava me impressionar com a quantidade de bens materiais que ele tinha, com seus brinquedos de status, e coisas similares. Ficou claro que ele era das fileiras dOs Absortos. Ele percebeu que eu não ficara impressionado com sua litania de luxos. Minha reação iniciação foi mais como pena do que qualquer outra coisa, apesar de eu não ter demonstrado ostensivamente qualquer emoção.

Eu pensei comigo mesmo, os occupati são todos iguais. Para eles, a vida é uma corrida entre a iluminação e a autodestruição.

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3 respostas para Os Absortos

  1. Pingback: A Portuguese Translation Of My Essay “The Engrossed” | Quintus Curtius

  2. Oi, Daniel. Excelente trabalho na tradução. Aprecio muito seus esforços…!
    Quintus

    • Daniel Castro disse:

      Olá, Quintus, fico agradecido. Seus textos sobre o Brasil são sempre excelentes, eu até desconfiava que você fosse brasileiro. E os textos sobre estoicismo também, foi um grande prazer traduzir esse ótimo texto.

      Daniel.

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