A Obra Prima Esquecida de Orwell

por Daniel Castro

Um covarde morre mil vezes antes de sua morte, mas o valente prova a morte somente uma vez. William Shakespeare

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Nota: Eu li a versão em inglês, mas essa capa é uma versão excelente

Ah, George Orwell. Um dos autores mais importantes do século XX, muito conhecido por suas obras 1984, e A Revolução dos Bichos. De fato, livros fundamentais, mas que infelizmente eclipsaram um livro ainda melhor, além disso extremamente importante para nossa época (apesar de ter sido publicado em 1934). Trata-se do romance “Dias na Birmânia” (atual Myanmar), sobre o qual falarei neste artigo.

As duas obras mais conhecidas de Orwell se situam em um ambiente totalitário, onde um governo/ditador (O Grande Irmão e Napoleão, respectivamente) para o bem do povo o oprime e silencia opositores através do uso onipresente da propaganda, da violência e do terror psicológico. Agora, seres humanos têm uma natural tendência à liberdade, e se a popularidade dessas obras pode ser explicada pelo medo de vivermos como os personagens dos livros viviam (isto é, sob uma ditadura, no caso comunista).

Enquanto isso, Dias na Birmânia fala da vida no Império Britânico na Índia (da qual a Birmânia fazia parte), no início do século XX sob o ponto de vista de um funcionário imperial, John Flory, com seus 30 e poucos anos, solitário em um país estranho, com problemas de auto-estima devido à uma marca de nascença no rosto, e mal adaptado à pequena sociedade inglesa local. Bem, ser solitário, mal adaptado e viver longe de sua terra natal parece um paraíso perto do destino do protagonista de 1984, Winston Smith, mas a história de John Flory é ainda mais relevante para os tempos modernos. É uma história de como a covardia causa a erosão na alma de um homem, e até o quão baixo ele pode ir devido à essa covardia.

Bem, eu disse que Flory, era solitário, mas ao longo do livro ele têm a companhia do Dr. Veraswami, médico local; de Ma Hla May, sua amante, também local; de Elizabeth Lackersteen, jovem inglesa e solteira, visitando a Birmânia com seus tios; e de seus colegas de clube, todos também ingleses.

O Dr. Veraswami é um amigo íntimo de Flory, que o visita com regularidade. Ele é admirador dos colonialistas ingleses, mesmo em face dos abusos que estes cometem com os locais, e sonha em participar do clube supramencionado, que por sua vez estava em processo de abrir pelo menos uma vaga a um membro nativo. Participar do clube aumentaria o status do Dr. Veraswami, que estava sob ataque de U Po Kyin, um homem nativo desonesto e traiçoeiro, aumentando assim sua resistência contra tal ataque. Porém essa abertura de vaga sofria ataques de seus membros racistas, reduzindo as chances do Dr.. E o que fez Flory para ajudar seu amigo? Absolutamente nada, vivia dando desculpas ao amigo, e quando estava com seus compatriotas escondia o máximo possível sua simpatia para com os nativos, de modo a não se indispor com os colegas de clube. Mesmo quando seu amigo genuíno corria um grande perigo, a covardia de Flory falou mais alto, e ele o traiu repetidas vezes. Às vezes a fraqueza é mais perigosa que a malícia.

Sobre seus colegas de clube, pouco tenho a dizer, a não ser pelo fato que mantinha duas faces com os mesmos, nunca tinha coragem suficiente para discutir suas ideias simpáticas aos burmeses por medo de ficar mal visto pelos colegas. Mesmo desprezando muitos deles, quando a hora da verdade chegava, ele se alinhava aos ingleses, e não aos burmeses.

O que por sua vez também reflete em sua relação com Ma Hla May, sua amante burmesa, de quem ele tinha vergonha meramente por sua origem. Flory quer ter a aprovação dos demais ingleses e sua amante burmesa ao mesmo tempo. Quando essa se cansa da situação, passa a chantagear Flory, e a cada vez que ele covardemente aceita a chantagem, uma chantagem maior é realizada. O medo e necessidade de aprovação chegam a tal ponto que contribuirão para a total destruição do nosso protagonista.

Por fim, e mais importante de todas, é a relação de Flory com Elizabeth Lackersteen, a bela e jovem inglesa que está a procura de um casamento. Em um dado momento da história, Flory salva a moça de um perigo, conquistando sua admiração e gratidão. Mas sua inépcia, medo e falta de jeito social fazem o encanto sobre a jovem ir se quebrando aos poucos, até ela sentir uma total repulsa pelo comportamento servil e suplicante de Flory. Para piorar, aparece em cena o Tenente Verrall, belo, confiante, poderoso, elitista e cafajeste. Uma fórmula perfeita para que a senhorita Lackersteen largasse de vez o desesperado Flory.

Os eventos que concluem essa obra prima seguem a mesma veia dos que descrevi acima, e revelam verdades fundamentais sobre os seres humanos. Sem dar mais detalhes, recomendo fortemente a leitura e reflexão sobre este livro. Sem exageros, pensar sobre e entender esse livro pode salvar vidas.

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