Introdução ao Estoicismo

O original está aqui.

Tradução por Daniel Castro

Aproximadamente 2.000 anos atrás um filósofo romano chamado Sêneca disse o seguinte sobre a situação da filosofia em sua época:

“De fato existem erros cometidos, através das falhas de nossos conselheiros, que nos ensinam como debater e não como viver. Há também erros cometidos pelos estudantes, que vão a seus professores para desenvolver, não suas almas, mas suas inteligências. Assim sendo, a filosofia, o estudo da sabedoria, se tornou filologia, o estudo das palavras.” (Lucius Seneca, Letters from a Stoic (Cartas a Lucílio)

Estas palavras soam verdadeiras até hoje, onde a filosofia, ainda mais que na época de Sêneca, perdeu de vista a questão mais importante de todas, de como viver.

Sêneca foi um membro da escola filosófica conhecida como Estoicismo, e enquanto hoje em dia a palavra ‘estoico’ seja entendida como um indivíduo não afetável pelo prazer ou dor, a definição moderna não representa fielmente a Escola Estoica de Filosofia.

O antigo estoico não era alguém que vivia a vida sem quaisquer emoções, mas ao invés disso era alguém que tentava se livrar das emoções negativas, e cultivar uma força interior e uma felicidade que irradiavam de seu ser, não importando as circunstâncias externas com que ele se deparasse.

Conforme ele explica, o estoico deve

“necessariamente ter uma alegria e felicidade que sejam tão profundas, e que venham de seu profundo interior, uma vez que ele se deleita em seus próprios recursos, e não deseja nenhuma satisfação além daquelas que vem de dentro.” (Lucius Seneca, Letters from a Stoic)

É devido ao fato que o Estoicismo coloca como ideal a conquista da tranquilidade em meio a lutas, e da alegria em meio a adversidades que temos visto um renascimento de sua popularidade nos tempos modernos. De fato, os princípios formulados pelos antigos filósofos estoicos formam a base da terapia cognitivo-comportamental, uma abordagem psicoterapêutica que é cada vez mais vista como o modo mais eficaz de superar diversas doenças mentais.

As raízes do Estoicismo voltam até o antigo filósofo Zenão de Cítio – Cítio sendo a cidade no Chipre onde ele nasceu. Zenão viveu de 334 a 262 AC e por volta do ano 300 AC se mudou para Atenas para praticar filosofia. Zenão fundou uma escola filosófica em Atenas, e porque ele dava suas aulas em um ‘pórtico pintado’ (Stoa Poikile) seus estudantes eram chamados de ‘Estoicos’.

Zenão, junto a outros filósofos estoicos que se seguiram a ele, foi extremamente influenciado por Sócrates. A influência deste era tão grande que o filósofo estoico romano Epíteto foi citado dizendo: “E você, embora não seja ainda um Sócrates, deveria viver como alguém que pelo menos quer ser um Sócrates.”

Enquanto Zenão foi o fundador do  Estoicismo, foi um de seus seguidores, Crisipo de Solis, que se tornaria o mais influente dos estoicos gregos. Embora nenhum de seus trabalhos tenha chegado até nossos dias, Crisipo alegadamente escreveu cerca de 700 trabalhos, e é amplamente considerado o maior filósofo da antiguidade, atrás somente de Sócrates, Platão e Aristóteles.

senecaEmbora o estoicismo tenha se originado na Grécia Antiga, ele chegou à sua maior popularidade séculos depois no Império Romano. A maior parte de nosso conhecimento sobre o Estoicismo deriva dos escritos e ideias destes ‘Estoicos Romanos’. Estoicos romanos importantes incluem Sêneca, Caio Musônio Rufo, Epíteto, que nascera escravo, e Marco Aurélio, imperador de Roma entre 161 e 169 DC.

Os estoicos dividiam a filosofia em três partes: lógica, física e ética. Porém, seu foco era na ética, e um estudo da natureza servia somente para solidificar suas visões éticas. Eles pensavam que a felicidade era adquirida pela virtude, excelência de caráter, que por sua vez era adquirida ao se ‘viver de acordo com a natureza’. Uma vez que a virtude era conquistada ao se viver de acordo com a natureza, os estoicos julgaram necessário entender a natureza do cosmo para determinar como se viver.

Observando o mundo os estoicos perceberam que a natureza exibe uma estrutura complexa e harmoniosa. Eles raciocinaram que tal estrutura deveria ser o produto de um único princípio divino que permearia todo o universo. Eles chamaram tal princípio por diversos nomes, incluindo Razão Universal, Mente, Deus e Zeus. Apesar da miríade de nomes, é crucial entender que eles pensavam neste princípio não como um ser sobrenatural ou transcendente, mas como algo incorporado na fábrica da natureza, e que assim de certo modo, seria a própria natureza. Os estoicos acreditavam que todo o cosmos era um organismo gigantesco, do qual cada um de nós seria somente uma parte:

“Tudo o que você vê”, escreveu Sêneca, “aquilo que abrange tanto deus e homem – é uno; nós somos partes de um grande corpo.” (Lucius Seneca, Letters from a Stoic)

dentro deste grande corpo que é o universo, os Estoicos alegavam que todos os eventos externos são totalmente determinados pelos eventos antecedentes, e portanto tudo o que acontece é predeterminado pelo martelo de ferro do destino.

“Qualquer coisa que aconteça a você”, escreveu Marco Aurélio, “estava esperando para acontecer desde o início dos tempos. Os fios entrelaçantes do destino são tecidos juntos: Sua própria existência e as coisas que acontecem a você.” (Meditações, Marco Aurélio) (NT.: Em tradução livre, não corresponde a versões em português do livro em questão)

Apesar de alegarem que tudo é predeterminado, os Estoicos não advogavam uma atitude de retiro resignado quanto à vida. Ao invés, eles criaram uma teoria hoje de chamada de compatibilismo, uma ideia que deixa espaço para a liberdade em um universo determinístico.

O compatibilismo dos Estoicos surgiu de sua concepção da natureza humana. Enquanto nós temos um corpo físico e mortal como todas as criaturas da Terra, os Estoicos pensavam que nós éramos únicos porque nossas mentes eram literalmente ‘derivadas’ da Razão Universal, ou Deus, que permeia e estrutura tudo que existe. Como o filósofo-escravo Epíteto notou, a maioria das pessoas não reconhece este ‘deus interior’, que na realidade é seu verdadeiro “eu”, e ao invés disso se identificam com sua criatura corporal:

“Vendo que nosso nascimento envolve a mistura dessas duas coisas – o corpo, de um lado, que compartilhamos com animais, e do outro lado, racionalidade e inteligência, que compartilhamos com os deuses –  a maioria de nós se inclina mais àquela relação, embora distorcida e morta, enquanto apenas uns poucos se inclinam a que é divina e abençoada.” (Enchiridion, Epictetus)

Ao cultivarmos este ‘deus interior’, os Estoicos acreditavam que poderíamos alcançar uma liberdade interior intocada pelo ‘martelo de ferro’ do destino. Esta liberdade interna não seria capaz de permitir a alguém mudar aquilo que já estava predeterminado, mas permitiria a alguém responder e reagir a estes eventos livre e conscientemente, e de tal maneira controlar o efeito que tais eventos tivessem em sua felicidade. Sêneca, por exemplo, pensava que devíamos aceitar e até mesmo amar qualquer coisa que o destino nos trouxesse: “Qual é o papel de um bom homem?”, ele escreveu, “Se oferecer ao destino. É um grande consolo que sejamos varridos junto com o universo.” (Lucius Seneca, Letters from a Stoic)

Para melhor explicar suas ideias pertinentes ao destino, Epíteto usava a analogia de um jogo de dado que havia sido criada por Platão séculos antes que aquele vivesse: “Nós devemos aceitar o que acontece como aceitaríamos o rolar de dados, e então proceder do modo que a razão melhor determinar.” (Platão, A República

O contraste entre os eventos de nossa vida predeterminados pelo destino, e a fortaleza interna de liberdade que temos o potencial de cultivar, delimita o princípio chave do Estoicismo: “Algumas coisas dependem de nós e outras não.” (Epíteto) De acordo com os Estoicos, a maioria das coisas não dependem de nós, ou em outras palavras estão além do nosso controle. As ações e opiniões de outras pessoas, nossa saúde, nossa reputação, e a quantidade de riqueza que acumulamos, são exemplos de coisas que não dependem de nós. Tais coisas podem ser influenciados de um modo ou outro por nossas ações, mas no fim das contas elas não estão sob nosso controle completo. As coisas pertinentes a nós, ou totalmente sob nosso controle, são as coisas que emanam de nossas mentes – por exemplo opiniões, julgamentos, crenças, desejos e objetivos.

De acordo com os estoicos a miséria e o sofrimento resultam do fato de que as pessoas fazem sua felicidade dependente de coisas que no fim das contas estão fora de seu controle, e ao fazer isto se escravizam. Epíteto, nascido escravo e que se tornou livre posteriormente em sua vida, é citado:

“O mestre de um homem é aquele que é capaz de dar ou remover aquilo que este homem quer ou evita. Quem quer ser livre, então, não deve querer nada, e evitar nada que dependa dos demais; ou então ele necessariamente será um escravo. (Enchiridion, Epictetus)

Para desistir de sua escravidão auto-imposta, nós devemos considerar como ‘indiferentes’ todas as coisas que não estão sob nosso controle, e fazer nossa felicidade dependente somente daquilo que está. Por exemplo, uma vez que nossos desejos dependem de nós, nós podemos nos treinar para parar de desejar aquilo que não está sob nosso controle. A vasta maioria das pessoas não faz isso mas servilmente corre atrás de bens externos como riqueza, poder, ou gratificação sexual, acreditando que somente conseguindo tais coisas elas se sentirão bem. Epíteto contrastava tal indivíduo servil com aquele que conquistou a liberdade interior:

“Sempre que você vir alguém com poder político, contraponha a ele o fato de que você não precisa de poder. Sempre que você vir alguém rico, observe o que você tem ao invés daquilo. Porque se você não tiver nada em seu lugar, você será miserável; mas se você tiver a ausência da necessidade de ser rico, perceba que você tem algo muito maior e mais valioso. Um homem tem uma bela esposa, você tem a não necessidade de querer uma. Você pensa que tais coisas são pequenas? O quanto tais pessoas – as ricas, as poderosas, aqueles que vivem com mulheres bonitas – pagariam pela habilidade em desprezar a riqueza, o poder e as mulheres que eles adoram e têm? (Enchiridion, Epictetus)

O problema em fazer nossa felicidade dependente de coisas fora de nosso controle é que quando tais coisas estão ausentes nós ficaremos miseráveis, e alternativamente, quando as tivermos muitas vezes estaremos ansiosos em não perdê-las, de tal modo que sequer desfrutaremos delas.

IÉ crucial notar aqui que os estoicos não advogavam que rejeitássemos tudo aquilo que está fora de nosso controle. Ao invés disso, coisas como saúde, riqueza, uma boa reputação, boa comida e bebida, amor e prazeres sexuais, tudo isso e outras coisas eram desfrutadas pelos estoicos quando elas estavam a seu alcance. Porém, ao contrário dos demais, o estoico não é preso a elas e sua felicidade não depende delas. Isto significa não somente que em sua ausência o estoico ainda vive sua vida com alegria e tranquilidade, mas que quando bens externos chegavam a ele, ele era capaz de desfrutá-los sem ficar ansioso em não perdê-los. Como Sêneca afirmou:

“Não está ao alcance de nenhum homem ter tudo o que ele quer; mas está em seu poder não desejar aquilo que ele não tem, e fazer o melhor com aquilo que ele tem.” (Lucius Seneca, Letters from a Stoic)

Mas e quanto às épocas de nossas vidas que nós encaramos não apenas a ausência de alguns bens externos, mas adversidades e azares graves? Que conselho os estoicos tinham para estas épocas? Para entender como um estoico deveria encarar tal situação devemos prestar atenção às palavras de Epíteto: “Não são as coisas que nos perturbam, mas nossos julgamentos sobre elas.”

A perda de alguém amado, o desmoronamento de uma carreira, doença, a total destruição da reputação, não são inerentemente ruins, mas somente são ruins porque assim as julgamos.

Se nós pudéssemos olhar para nossos infortúnios com novos olhos e assumir uma atitude diferente perante a eles, os estoicos alegavam que nós poderíamos nos beneficiar de nossos problemas, e vê-los como montanhas a escalar ao invés de poços onde cair:

“São as circunstâncias difíceis que demonstram os homens verdadeiros.” afirmou Epíteto. Infortúnios constantes, escreveu Sêneca “traz uma benção: aqueles a quem eles assaltam, eles eventualmente fortalecem.” (Lucius Seneca, Letters from a Stoic)

Ou talvez mais poderosamente, Sêneca disse:

“A excelência definha sem um adversário: a hora para vermos o quão grande ela é, qual é sua força, é quando ela demonstra seu poder persistentemente. Eu te garanto, bons homens devem fazer o mesmo: eles não devem ter medo de encarar dificuldades, ou reclamar do destino; o que quer que aconteça, bons homens devem fazer sua boa parte, e transformar aquilo para um fim bom; não é o que você aguenta que importa, mas como você aguenta.” (Lucius Seneca, Letters from a Stoic)

Os princípios que guiavam a vida dos estoicos poderão parecer extremos e difíceis de seguir para muitos. De fato, Epíteto alegava que o modo de vida estoico era ão difícil que nunca houve um estoico verdadeiro: “Pelos deuses”, ele disse, “eu adoraria ver um estoico. Mas você não pode me mostrar um totalmente formado.”

Os estoicos mantinham que se jamais existisse um indivíduo que encorporasse perfeitamente os princípios estoicos, tal indivíduo seria chamado de Sábio Estoico, e seria mais divino que humano. Tal Sábio Estoico, Crisipo supostamente alegou, seria perfeitamente sereno e feliz mesmo no Touro de Bronze. Tal Touro era uma réplica de bronze no qual o tirano Fálaris colocava seus inimigos antes de acender um fogo sob sua barriga, assando viva sua vítima.

Sêneca descreveu a natureza divina do Sábio Estoico com as seguintes palavras:

E se você se encontrar com um homem que jamais se alarma com perigos, nunca é afetado por ânsias, é feliz na adversidade, calmo em meio à tempestade, vendo a humanidade de um nível superior, e os deuses no mesmo, não seria provável que um sentimento de veneração aflorasse em você por ele? Não é provável que você diga a si mesmo, ‘aqui está algo grande demais, sublime demais para qualquer um pensar que está na mesma categoria do corpo frágil em que ela habita.’ Neste corpo descendeu um poder divino.” (Lucius Seneca, Letters from a Stoic)

Enquanto os antigos estoicos sabiam que poucos, ou sequer alguém, se tornariam Sábios, eles acreditavam que haviam grandes benefícios para aqueles que buscassem tal ideal. Os estoicos eram extremamente conscientes que a maioria das pessoas era incapaz de lidar com as dificuldades da vida sem se cansar e eventualmente se dariam por vencidas.

Os estoicos pensavam na filosofia como uma ferramenta para ajudar a esculpir e moldar nosso caráter em uma fortaleza impenetrável, uma capaz de aguentar lutas e adversidades com calma e força. Epíteto, de fato caracterizou a filosofia como algo concernente à ‘arte da vida’, ou seja, em como atravessar a batalha que a vida é, não somente intacto como a vivendo bem.

Porque como o grande Imperador Romano Marco Aurélio disse: a arte de viver é mais como a luta livre do que como a dança”. (Meditations, Marcus Aurelius)

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