O Intelectual, porém idiota

Por Nassim Taleb, vi o original pela primeira vez aqui

Tradução por Daniel Castro

O que temos visto pelo mundo todo, da Índia ao Reino Unido ao EUA, é a rebelião contra o círculo interno de “clérigos” sem-pele-no-jogo que fazem as políticas e jornalistas-insiders, aquela classe de especialistas semi-intelectuais paternalistas com educação da Ivy league, Oxford-Cambridge, ou com algum rótulo importante parecido, que dizem ao resto de nós 1) o que fazer, 2) o que comer, 3) como falar, 4) como pensar… e 5) em quem votar.

intelectual-idiota

Mas o problema é que aqueles com um olho seguirem os cegos: os auto-descritos membros da “intelligentsia” não conseguiriam encontrar um coco na Ilha dos Cocos, significando que eles não são inteligentes o suficiente para definir a inteligência e assim caem em circularidades — mas sua principal capacidade é passar provas escritas por pessoas como eles. Com artigos de psicologia sendo confirmados menos do que 40% das vezes, conselhos nutricionais se revertendo após 30 anos de medo da gordura, análises macroeconômicas funcionando menos que astrologia, a nomeação de Bernanke (NT.: ao Federal Reserve) que estava ainda pior que um total desconhecimento dos riscos, com as pesquisas  farmacêuticas replicando na melhor das hipóteses 1/3 das vezes, pessoas estão perfeitamente capacitadas a confiar em seus instintos ancestrais e escutar suas avós (ou Montaigne e tal conhecimento clássico filtrado) com um histórico melhor do que o desses valentões que fazem políticas.

De fato podemos ver que esses burocratas-acadêmicos que se sentem no direito de ditar nossas vidas não são sequer rigorosos, quer seja em estatísticas médias ou em geração de políticas. Eles não podem diferenciar ciência de cientifismo —  de fato a seus olhos esta se parece mais científica que aquela. (Por exemplo é trivial demonstrar o seguinte: muito do que os tipos Cass-Sunstein-Richard Thaler  (NT.: autores do livro Nudge)— aqueles que querem “empurrar” a nós a algum tipo de comportamento — muito do que eles classificariam como “racional” ou “irracional” (ou alguma dessas categorias indicando um desvio do protocolo desejado) vem de seu entendimento falho da teoria da probabilidade e uso cosmético de modelos de primeira ordem.) Eles também são propensos a confundir o conjunto pelo agregamento linear de seus componentes conforme vimos no capítulo que estendia a regra da minoria. (NT.: regra da minoria refere-se ao fato de que uma minoria determinada acaba submetendo a população geral às suas vontades, há um artigo em inglês do mesmo autor aqui.)

O Intelectual Porém Idiota é um produto da modernidade que está portanto sendo mais produzido desde meados do século XX, para alcançar seu supremum hoje em dia, junto à ampla categoria de pessoas sem pele-no-jogo que invadiram tantos aspectos da vida. Por que? Simplesmente, na maioria dos países, o papel do governo é de 5 a 10 vezes maior do que era há um século (expresso em porcentagem do PIB). O IPI parece ubíquo em nossas vidas mas ainda assim são uma pequena minoria e raramente são vistos fora de publicações especializadas, think tanks, a mídia, e universidades — a maioria das pessoas têm trabalhos de verdade e nesses não há muito espaço para os IPI’s.

Fique atento ao semi-erudito que pensa ser um erudito. Ele não consegue detectar sofismas naturalmente.

O IPI patologiza outros por fazerem coisas que eles não entendem sem jamais perceber que é seu entendimento que pode ser limitado. Ele pensa que pessoas deveriam agir de acordo com seus melhores interesses e que ele conhece seus interesses, particularmente se eles forem “red necks” ou ingleses que votaram pelo Brexit. Quando os plebeus fazem algo que faz sentido para eles, mas não para ele, o IPI usa o termo “ignorante”. Para o que nós geralmente chamamos de participação no processo político, ele tem duas designações: “democracia” quando se encaixa ao que eles quer, e “populismo” quando os plebeus ousam votar de um modo que contradiz suas preferências. Enquanto que pessoas ricas acreditam em um dólar de impostos – um voto, humanistas em um homem um voto, a Monsanto em um lobista um voto, o IPI acredita em uma graduação da Ivy League (NT.: ou em Federais no Brasil…) um voto, com alguma equivalência para as escolas estrangeiras de elite e PhDs conforme esses forem necessários no clube.

Mais socialmente, o IPI assina a New Yorker. Ele nunca xinga no twitter. Ele fala em “igualdade racial” e “igualdade econômica” mas nunca saiu para beber com um taxista imigrante (novamente, não têm pele em jogo no real já que o conceito é estranho ao IPI. Aqueles no Reino Unido foram enganados por Tony Blair. O IPI moderno já foi a mais que um TEDx talks pessoalmente ou assistiu mais que dois TED talks no Youtube. Não apenas ele votará na Hillary Monsanto-Malmaison porque ela parece elegível ou alguma lógica circular do tipo, mas ele diz que qualquer um que não o fizer está mentalmente doente.

O IPI tem uma cópia da primeira edição de A Lógica do Cisne Negro em sua estante, mas confunde a ausência de evidência com a evidência de ausência. Ele acredita que Organismos Geneticamente Modificados são “ciência”, e que a “tecnologia” não é diferente de cruzamentos convencionais devido à sua prontidão em confundir ciência com cientificismo.

Tipicamente, o IPI entende a lógica de primeira ordem bem, mas não efeitos de segunda ordem (ou superiores) fazendo dele alguém totalmente incompetente em domínios complexos. No conforto de sua casa suburbana com 2 carros na garagem, ele pede a “remoção” de Kadhafi porque ele era um “ditador”, não entendo que remoções têm consequências (lembre-se que ele não tem pele em jogo e não paga pelos resultados).

O IPI esteve errado, historicamente, sobre o Stalinismo, Maoismo, OGMs, Iraque, Líbia, Síria, lobotomias, planejamento urbano, dietaa low-carb, aparelhos de academia, comportamentalismo, gorduras trans, freudianismo, teoria de portfólios, regressão linear, Gaussianismo, Salafismo, modelamento de equilíbrios estocásticos dinâmico, projetos habitacionais, genes egoístas, Bernie Madoff (antes da casa cair) e valores-p. Mas está convencido que sua posição atual é a correta.

O IPI é membro de um clube para conseguir privilégios de viagens; se for um cientista social ele usa estatísticas sem saber com elas são derivadas (como Steven Pinker e psicolofastros (NT.: uma junção das palavras psicólogo e filosofastro) em geral); quando no Reino Unido, ele vai a festivais literários; ele bebe vinho tinto com filé (nunca branco); ele pensava que a gordura era prejudicial e agora reverteu totalmente esse pensamento; ele toma estatinas porque o médico dele mandou; ele não entende ergodicidade e quando ela é explicada a ele, ele esquece cedo ou tarde; ele não usa palavras iídiches mesmo quando falando sobre negócios; ele estuda gramática antes de falar uma linguagem; ele tem um primo que trabalhou com alguém que conhece a Rainha; ele nunca leu Frederic Dard, Libanius Antiochus, Michael Oakeshot, John Gray, Amianus Marcellinus, Ibn Battuta, Saadiah Gaon, ou Joseph De Maistre; ele nunca ficou bêbado com russos; nunca bebeu até o ponto quando pessoas começam a quebrar copos (ou preferencialmente, cadeiras); ele sequer sabe a diferença entre Hécate e Hécuba (o que no popular seria algo como“não diferencia Merdex de Rolex”); ele não sabe a diferença entre “pseudointelectual” e “intelectual” na ausência de pele em jogo; ele mencionou mecânica quântica duas vezes ao menos nos últimos cinco anos em conversas que não tinham nada a ver com física.

El sabe em qualquer ponto do tempo o que suas palavras ou ações estão fazendo à sua reputação.

Mas um indicador muito mais fácil: ele sequer faz o levantamento terra.

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