Porque na Verdade os Homens das Cavernas Não Morriam Jovens

Tradução por Daniel Castro. O original está aqui

Se você já tentou explicar a dieta paleo para um cético, você provavelmente encontrou esse argumento. Não é geralmente a primeira objeção, mas em algum ponto após “…não pode nem trigo integral?” e “mas gordura saturada não causa ataques cardíacos?” vem “mas os homens das cavernas não morriam todos aos 25 anos? Por que alguém comeria como eles?”

Estatística Básica: Média vs. Moda

O argumento que a Paleo deve ser insalutar porque “o homem das cavernas médio só vivia até os 25 anos” é o exemplo perfeito de quão fácil é tomar conclusões falsas a partir de estatísticas verdadeiras. Considere as duas afirmações abaixo:

  1. O homem das cavernas comum vivia até os 25 anos.
  2. A idade média de morte dos homens das cavernas era 25 anos.

A primeira afirmação descreve uma norma cultural, usando média para significar normal ou típica. De acordo com a primeira afirmação, João das Cavernas nascido durante o paleolítico poderia esperar razoavelmente viver até os 25 anos, mas não muito além. A segunda também usa a palavra “média,” mas com um significado bem diferente. Aqui, ela descreve uma fórmula matemática: você descobre a média de um grupo de números ao somá-los e dividir o resultado pela quantidade de números. Por exemplo, se João das Cavernas chegou aos 45 anos, mas seu irmão José das Cavernas morreu aos 5, você pode achar a média das vidas dos irmãos:

Average vs mode

Perceba como a vida média dos dois irmãos não chega nem perto da vida real de cada um deles.

Muitas pessoas tem um entendimento falso sobre a real expectativa de vida no paleolítico porque elas confundem os dois significados da palavra “média.” No sentido cultural, significando normal ou típico, a palavra “média” significa algo próximo da definição matemática de moda, ou o número mais comum em um grupo. Isto leva muitas pessoas a interpretar as estatísticas sobre “média” e pensar que elas significam a moda. Mas isso pode ser bem enganador: a média matemática de um dado grupo de números pode ser igual à moda, mas não necessariamente tem de ser – como no caso do João das Cavernas acima.

Em um sentido matemático, como na segunda afirmação, a expectativa de vida média dos seres humanos paleolíticos pode ter sido 25 anos. Porém, isto não necessariamente significa que a moda das vidas destes seres humanos tenha sido 25. Para ilustrar a diferença, as tabelas abaixo demonstram as expectativas de vida de cada uma das afirmações acima, projetadas sobre um grupo teórico de 20 indivíduos das cavernas.

Chart 1

Neste gráfico, a maioria dos homens das cavernas está morrendo próximo aos 25 anos – há alguns pontos extremos, mas o João das Cavernas deste grupo poderia esperar morrer próximos dos 25 – A moda (mais comum) da idade da morte é entre as idades de 20 a 25 anos. A média matemática também é próxima de 25.

Chart 2

Tomando a média matemática das idades de morte do grupo destes homens das cavernas também daria um número próximo de 25 anos, mas isso não significa que a maioria deles – ou mesmo qualquer um deles – morreu aos 25 anos. A moda, em outras palavras, não é a mesma necessariamente que a média: neste gráfico, a média é próxima de 25, mas a moda é o grupo entre 0 e 5 anos, e a amplitude das vidas varia muito entre dois padrões típicos: morte na infância, ou sobrevivência até a meia idade. Se João das Cavernas nascido nessa tribo fizesse 10 anos, ele teria uma boa chance de conhecer seus netos.

O segundo gráfico é próximo do que os antropologistas querem dizer quando eles falam sobre “expectativa de vida média” dos seres humanos pré-históricos ser 25. É por isso que a média como conceito matemático pode ser tão enganadora: um viés forte para um dos lados dos dados pode distorcer a média tão dramaticamente que ela não mais nos diz nada significativo sobre as vidas dos humanos paleolíticos reais.

Mortalidade infantil e a duração da vida paleolítica

O fator distorcendo a média dos dados e dando vazão à interpretação falsa de que os homens das cavernas morriam muito jovens é o índice de mortalidade infantil. Isto é difícil de determinar usando dados de populações realmente paleolíticas. Enquanto que pesquisadores tentaram determinar a idade de morte dos humanos paleolíticos analisando restos de ossos, estes procedimentos medem os ossos paleolíticos em relação aos ossos modernos, não necessariamente uma comparação relevante dado que os paleolíticos tinham muito mais Vitamina D do que humanos modernos, e que embora não tivessem comida tão abundantemente, ela não era contaminada por toxinas químicas modernas. Evidências do paleolítico são escassas o suficiente para que pesquisas com caçadores coletores modernos dêem estimativas mais precisas: um estudo descobriu que de 30 a 40% das crianças dos caçadores coletores morrem antes dos 15 anos, e a maioria destas antes dos 5. Outros estudos chegou a uma conclusão ainda mais deprimente: cerca de 43% das crianças dos caçadores coletores modernos nunca chega ao seu 15° aniversário (embora os índices de sobrevivência fossem maiores entre os povos que também eram horticulturalistas, que tinham acesso um tanto de medicina moderna). Crianças eram especialmente vulneráveis a todos tipos de doenças e infecções que nós podemos prevenir com vacinas e antibióticos: devido ao avanço incrível da medicina moderna, a mortalidade infantil nos EUA é hoje de 0,639%. A mortalidade infantil das crianças paleolíticas é quase inimaginável para nós.

Esta alta mortalidade infantil leva a idade média de morte para baixo, fazendo dela uma estatística praticamente inútil para descobrir como realmente era a vida no paleolítico. Um número médio é conveniente para citar em conversas de jantar, mas dividir a população em grupos de idade dá um panorama muito mais preciso.

Então quais eram os padrões de mortalidade dos seres humanos pré-históricos? Dos estudos dos restos de culturas paleolíticas e dos padrões de vida dos caçadores coletores modernos, pesquisadores concluíram que a mortalidade humana era como um curva em U. A infância era perigosa, mas se você sobrevivesse até os 15, você poderia esperar uma duração de vida razoável: os índices de mortalidade começavam a subir de novo aos 40, duplicando aos 60 e de novo aos 70 anos. Gurven and Kaplan descobriram que a idade modal dos caçadores coletores que passavam dos 15 anos era de 72 anos. Retirando a mortalidade infantil, Stephen Guyenet descobriu que a média de vida de um grupo Inuit (NT.: Esquimó) era de 43,5 anos, com 25% da população passando dos 60. Um estudo com os Hazda exaustivamente demonstrou que circunstâncias modernas não influenciavam a mortalidade significativamente e que os humanos evoluíram para uma vida pós reprodução de cerca de 20 anos.

Enquanto que as estimativas específicas podem variar, nenhuma delas é próxima de 25 como a idade típica de morte. Também interessantes são as causas de morte entre as populações de caçadores coletores. Poucas pessoas pessoas sofrem de diabetes, doenças cardíacas e outras doenças degenerativas do mundo moderno; a maior mortalidade parte de doenças que o mundo moderno tornou muito menos perigosas, especialmente doenças gastrointestinais e respiratórias. O padrão básico da mortalidade no paleolítico era provavelmente mais próximo das sociedades caçadoras coletoras modernas: uma mortalidade infantil chocantemente alta, mas uma expectativa de vida relativamente alta para àqueles que chegavam à puberdade, com a maioria das mortes causadas por doenças que são de pouca ameaça para pessoas em sociedades modernas.

hunter-gatherers

Não estão na figura: pessoas prestes a morrer

Reprodução e crescimento populacional

Este argumento não é simplesmente derivado de estatísticas de caçadores coletores modernos e extrapolado para o paleolítico com a assunção que as condições de vida seriam essencialmente similares. Ele também tem uma base na biologia humana, especificamente a reprodutiva. Assumindo que uma mulher paleolítica quisesse maximizar a chance de seu bebê de sobrevivência, ela provavelmente o alimentaria no peito por pelo menos dois anos. Isto significa que as crianças seriam concebidas com pelo menos 3 anos de diferença: 2 anos de aleitamento e 9 meses de gravidez. Estudos com caçadores coletores demonstram que as mulheres chegam à menarca com a idade média de 16 anos, e dão à luz à primeira criança aos 19 (Hoggan usa 13, mas esta idade é comum somente nas sociedades industriais modernas, onde o maior suprimento alimentar tem abaixado a idade da menarca desde o século XIX. A idade média da menarca entre caçadoras coletoras modernas parece ser uma estimativa muito mais precisa para uma mulher paleolítica). Isto significa que a mulher típica teria uma criança aos 19, a segunda aos 22, a terceira aos 25 – e então, de acordo com a teoria que as pessoas das cavernas morriam jovens, ela morreria. Mas este padrão populacional seria totalmente insustentável. Estatisticamente se de 30 a 40% das crianças morrerem na infância, pelo menos uma delas iria morrer, não importa o que a mãe fizesse. Digamos que seja a primeira. A mulher agora tem 2 crianças, mas se ela morrer enquanto a terceira for recém-nascida, ela não obterá os benefícios do aleitamento materno, e portanto terá poucas chances de sobreviver. A segunda talvez consiga chegar à idade reprodutiva, mas se somente uma criança sobreviver até se reproduzir, a população humana rapidamente morreria. (NT.: o autor aqui comete um erro de lógica, pelo exemplo dele, duas das três crianças morreriam antes da puberdade, o que daria 67%, e não 30 a 40%. Ainda assim, a conclusão sobre a dificuldade dos infantes perdendo pais tão cedo é correta, apenas o desenvolvimento do argumento que foi falho.)

Além disso, uma mulher poderia também não ficar grávida logo após terminar de aleitar a última. Ela poderia escolher não fazer mais sexo, ou uma escassez alimentar poderia colocar seu corpo em modo de poupar nutrientes, suprimindo sua fertilidade. Se uma mulher tivesse apenas duas crianças aos 25 anos, o modelo populacional fica ainda mais sombrio.

Além da improbabilidade matemática dessa visão, a biologia evolutiva apresenta outro obstáculo na forma da menopausa.

Nada evolui sem algum propósito. Humanos não começariam a crescer chifres ou ver o espectro ultravioleta sem alguma necessidade ambiental para estas características. Do mesmo modo, a menopausa não teria evoluído a menos que trouxesse uma vantagem evolucionária.

A “hipótese da avó” propõe que mulheres mais velhas, que são mais propensas a morrerem durante o parto ou dar a luz a bebês com defeitos de nascença, provêm mais benefícios às suas famílias ao investir tempo e energia nas crianças que elas já tiveram. A menopausa protege mulheres mais velhas de gravidezes que elas não podem sustentar fisicamente, de modo que elas continuem a sustentar sua prole e garantir a sobrevivência de sua linhagem genética. Mas a menopausa jamais teria evoluído se as mulheres do paleolítico morressem aos 25 anos: não haveria pressão evolutiva para uma mudança que acontece entre os 40 e 50 anos.

Conclusão

A evolução da menopausa e a impossibilidade matemática de crescimento populacional são dois rombos na hipótese que os humanos paleolíticos morriam aos 25 anos. Dados disponíveis de sociedades modernas de caçadores coletores também contrariam essa hipótese: membros desses grupos que chegam à puberdade têm expectativas de vida entre 60 e 70 anos.

Muitas pessoas não entendem esses padrões porque elas olham somente para a duração de vida “média”. A média matemática das idades de todo mundo em um grupo paleolítico pode ter sido 25, mas ao dividir esse número por faixas etárias revela que a alta mortalidade infantil diminui essa média: ou você morria aos 3 anos, ou chegava aos 60. A média de vida muito mais elevado do mundo moderno se deve à tecnologia média que reduziu dramaticamente o índice de mortalidade em crianças com menos de 10 anos. Comparar as expectativas de vida “médias” definitivamente prova que a medicina moderna é melhor que a paleolítica – mas não diz nada sobre dieta.

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