Carne vermelha e câncer

por Chris Kresser, o original está aqui.

Tradução Daniel Castro.
A mídia e a blogosfera estão excitadas com o último relatório da OMS, que classificou carnes curadas e processadas como carcinogênicas e as colocou na mesma categoria que amianto, álcool, arsênico e cigarros. Mas o que a pesquisa realmente nos diz sobre a ligação entre carne vermelha e câncer?

bacon on the grill

Bem, lá vamos nós de novo. A cada ano, como um alarme de relógio, o establishment médico convencional prepara um ataque contra a carne vermelha.

Por décadas, nos disseram para não comê-la por causa do colesterol e da gordura saturada que ela contém. Quando este argumento se tornou menos convincente, um novo foi oferecido: não devemos comer carne vermelha porque ela aumenta a produção de um composto chamado TMAO, que causa ataques cardíacos.

Agora nos dizem para não comer carne vermelha— e especialmente carnes curadas e processadas— porque ela nos causará câncer. Em um relatório recente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou o bacon, salsichas e outras carnes curadas e processadas como “carcinogênicos grupo 1,” que as coloca na mesma categoria com cigarros, amianto, álcool e arsênico. Ele também colocou carne vermelha fresca no grupo 2A, o que sugere que ela é “provavelmente carcinogênica” a humanos.

É claro, este argumento não é novo; está por aí por pelo menos 40 anos. Já em 1975, cientistas especulavam que o consumo de produtos de origem animal esta ligado ao câncer. (1)

Quão forte é a evidência ligando a carne vermelha ao câncer?

Porém, a evidência embasando esta alegação nunca foi tão forte quanto seus propositores sugerem. Eu revisei estas evidências no passado, assim como fizeram muitos de meus colegas. Aqui vai uma lista de alguns artigos e podcasts que eu recomendo se você quiser se aprofundar neste tópico:

Eu sei que a maioria não tem tempo para ver todo este material, então vou resumir aqui os pontos mais relevantes o melhor possível.

Comer bacon é o mesmo que fumar cigarros quando falamos sobre câncer?

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Vamos começar com uma revisão crítica da evidência ligando a carne vermelha ao câncer que foi publica nos jornais científicos mais prestigiados do mundo (Obesity Reviews) em 2010. (2) Os autores analisaram 35 estudos que alegam ter descoberto uma associação entre carne vermelha e câncer e descobriram diversos problemas. Aqui estão algumas passagens chave deste papel, com meus comentários.

Coletivamente, associações entre consumo de carne vermelha e câncer colorretal são geralmente fracas em magnitude, com a maioria dos riscos relativos abaixo de 1,5 e não significantes estatisticamente, e há uma ausência de uma resposta clara à dosagem.

Tradução: a associação entre carne vermelha e câncer não é forte (i.e. comparar bacon a cigarros é absurdo), e de fato não é distinguível de sorte. Se a carne vermelha realmente causasse câncer, deveria haver um aumento linear(contínuo) conforme o consumo daquela aumentasse. De fato, alguns estudos demonstram uma queda nos níveis de câncer nas pessoas que mais comiam carne vermelha. (3)

Resultados variam de acordo com o local anatômico do tumor (cólon vs. reto) e por sexo, e os dados epidemiológicos não indicam uma associação positiva para mulheres enquanto a maioria das associações são pouco elevadas entre os homens.

Tradução: os estudos alegam que a carne vermelha causa incidências diferentes de câncer em diferentes partes do trato intestinal, e diferentes incidências em homens e mulheres. Por exemplo, no estudo que referenciei acima (#3), existiu uma relação inversa entre o consumo de carne vermelha e o câncer no cólon (ou seja, quem comia mais carne vermelha tinha menos câncer no cólon), mas uma relação positiae entre a carne vermelha e o câncer retal. E nas análises dos dados do Estudo da Saúde da Mulher, pesquisadores encontraram um forte (e linear) relação inversa entre o consumo de carne vermelha e de câncer no cólon. (4) Sem uma explicação clara porque a carne vermelha preveniria alguns tipos de câncer intestinal enquanto contribuiria para outros, e porque ela tem efeitos diferentes em homens e mulheres, a probabilidade de uma relação causal entre o consumo de carne vermelha e câncer é reduzida.

Colinearidade entre o consumo de carne vermelha e outros fatores dietários (e.g. estilo de vida ocidental, alto consumo de açúcares refinados e álcool, baixo consumo de frutas, vegetais e fibra) e fatores comportamentais (e.g. pouca atividade física, alto índice de fumantes, altos índices de massa corporal) limitam a habilidade de isolar analiticamente os efeitos independentes do consumo de carne vermelha.

Tradução: os estudos ligando carne vermelha e câncer são afetados pelo “viés do usuário saudável.” Isto é um modo bacana de dizer que pessoas que praticam um hábito percebido como saudável tem maior probabilidade de praticar outros hábitos que elas pensam ser saudáveis. Por outro lado, pessoas que praticam um hábito supostamente insalutar tendem a praticar outros hábitos supostamente insalutares.

Em um mundo ideal, nó seríamos capazes de conduzir um estudo aleatorizado e controlado para determinar se a carne vermelha causa câncer. Nós criaríamos dois grupos de pessoas relativamente similares em idade e outras características. Então os isolaríamos em um laboratório médico, controlando estritamente suas dietas, exercícios, e outros fatores do estilo de vida, e então alimentaríamos um grupo com mais carne e outro com menos.

Infelizmente, isto nunca irá acontecer. Câncer pode demorar décadas a se desenvolver, então estas pobres almas ficariam vivendo no laboratório por no mínimo 20 anos. Mesmo que conseguíssemos achar voluntários para tal estudo, o custo seria astronomicamente alto.

Como resultado, nós devemos olhar para estudos observacionais para iluminarmos a questão se a carne vermelha causa câncer. O problema com isto é que tais estudos não provam causalidade— eles apenas demonstram uma associação, ou relação, entre diferente variáveis. Algumas vezes a associação é causal, outras vezes, não.

Vamos considerar a carne vermelha. Independente de se o consumo de carne vermelha fresca ou processada foi insalutar, certamente ele foi percebido como tal nos últimos cinquenta anos no mundo ocidental. O que significa que pessoas em estudos observacionais que comem mais carne também têm uma tendência a fumar e beber mais, comer menos frutas frescas e vegetais, exercitar-se menos, e tomam parte em outros comportamentos insalutares que podem influenciar no risco de câncer. Isto não é apenas especulação e já foi demonstrado em diversos estudos. (4, 5)

Por exemplo, a maioria dos americanos que comem carne vermelha comem junto uma pão enorme feito de farinha branca, com uma porção ou mais de outros carboidratos refinados (chips, fritas, refrigerante) cozidos em óleos vegetais râncidos e industrializados. Como sabemos que é a carne vermelha — e não estas outras comidas—que estão causando o aumento no câncer?

Os melhores estudos observacionais tentam eliminar a influências destes fatores, mas na prática isto é difícil ou impossível.

Você não pode ver o que você não procura

E ainda mais, existem certos fatores que provavelmente têm um papel significativo na relação entre a comida que comemos e câncer, mas até onde eu sei, nunca foram adequadamente controlados em qualquer estudo.

Um destes é a flora gastrointestinal. Trabalhos prévios demonstraram que a composição da flora gastrointestinal pode afetar diretamente a influência de fatores dietários no risco de câncer. (6)

Por exemplo, Streptococcus bovis, Bacteroides, Fusobacterium, Clostridia, e Helicobacter pylori foram implicados no desenvolvimento de tumores, enquanto Lactobacillus acidophilus, L. plantarum, e Bifidobacterium longum inibem a carcinogênese no cólon. (7) Outros estudos demonstram que algumas espécies de bactérias eram maiores em populações com alto risco de câncer de cólon, enquantro haviam outras espécies em maior tamanho em populações com baixo risco deste câncer. (8) Finalmente, um artigo recente comparando a flora gastrointestinal de 60 pacientes com câncer colorretal com a de 119 indivíduos no grupo de controle. Os pacientes com câncer tinham uma elevação significativa de Bacteroides/Prevotella (ambas espécies reconhecidas como perigosas) quando comparados ao grupo de controle, e a diferença não era afetadas pelas características gerais dos pacientes (e.g., idade, IMC, histórico familiar de câncer), tamanho ou local do tumor, ou estágio da doença. (9)

Nós ainda temos muito a aprender sobre a influência da flora gastrointestinal na saúde e doenças, mas já sabemos o suficiente para concluir que ela é significante. É possível— e eu diria provável— então, que a variabilidade que vemos nos estudos mostrando uma associação entre consumo de carne e câncer pode ser em parte devido ao estado da flora intestinal do paciente.

Em outras palavras, um paciente com uma flora disbiótica (i.e., comprometida)  pode estar sofrendo um maior risco de câncer se ele ou ela consumir muita carne vermelha fresca ou processada. Mas um paciente com uma flora saudável pode não correr.

Há, de fato, alguma pesquisa que indica esta possibilidade— embora não fosse isto que seus autores quisessem provar. Alguns anos atrás, cientistas da Cleveland Clinic publicaram um artigo ligando o consumo de carne vermelha a um composto chamado TMAO, que tem sido associado a doenças cardiovasculares.

Este artigo estava cheio de problemas (que eu descrevi aqui), incluindo o mais óbvio— que diversas comidas, incluindo peixes e frutos do mar, aumentam a produção de TMAO muito mais do que a carne vermelha. Porém, há uma seção dele que achei bem interessante.

Elas demonstrou que onívoros que comem carne vermelha produzem TMAO, enquanto veganos e vegetarianos que não comeram carne por pelo menos um ano não produzem. Os pesquisadores alegaram que isto significa que comer carne vermelha deve alterar a flora gastrointestinal de tal modo que predisponha a uma produção de TMAO.

Porém, há outra explicação que acredito ser bem mais plausível: quem come carne vermelha tem outros hábitos insalutares que levam a uma disbiose gastrointestinal. Isto poderia incluir comer menos frutas e vegetais e menos fibra fermentável, enquanto comem mais farinha refinada, açúcar e óleos vegetais. Todos estes comportamentos são mais comuns no comedor de carne “médio”, e todos eles foram associados a mudanças não desejáveis na flora gastrointestinal. (10, 11, 12)

Maçãs e laranjas (ou, Paleo vs. Dieta Padrão Americana)

Estudos observacionais são úteis para gerar hipóteses e identificar tendências gerais. Mas outra limitação que eles sofrem, além das que descrevi acima, é que eles não são capazes de detectar diferenças cruciais entre participantes do estudo.

Considere duas pessoas diferentes. Uma segue a dieta padrão americana, não se exercita muito, e tem uma flora comprometida. A outras segue a dieta paleo, exercita-se regularmente, e tem uma flora saudável. Em um estudo observacional que procura relações entre o consumo de carne e câncer, ao menos 95% (se não mais) dos comedores de carne nos estudos típicos recaíram na primeira categoria. Se o estudo concluir que há uma ligação entre carne vermelha e câncer, os 5% dos participantes que comem uma dieta saudável, exercício, e têm um trato gastrointestinal saudável— e assim estão bem menos predispostos a experimentar o mesmo impacto por comer carne vermelha— irão ser tratamos como se fizessem parte dos outros 95%.

Dito de outro modo, deve ser bem óbvio, dado o que já sabemos sobre a influência da dieta, estilo de vida, e da flora sobre o risco de câncer, que alguém seguindo uma dieta e estilo de vida tipo paleo não terá o mesmo risco de câncer do que alguém seguindo uma dieta padrão americana, mesmo comendo quantias equivalentes de carne vermelha. Ainda assim estes dois grupos serão considerados iguais nos estudo e nas reportagens da mídia. Este é um problema enorme para a pesquisa, e não foi adequadamente resolvido.

Qual é o resumo disto?

Mesmo que você ignore tudo que escrevi neste artigo e aceite a reportagem da OMS com seu valor de face, o quanto seu risco de câncer aumentaria se você comesse carnes curadas e processadas?

Cerca de três casos extras de câncer colorretal a cada 100.000 adultos. Isto significaria uma chance extra de 1 e 33.000 de desenvolver câncer por comer estas carnes.

Isto é bem abaixo do quanto fumar cigarros, que a OMS agora classifica na mesma categoria que comer bacon e salame, aumenta seu risco.

Conforme o professor Ian Johnson do The Institute of Food Research disse em uma entrevista para o jornal The Guardian:

É certamente bem inapropriado sugerir que quaisquer efeitos adversos do bacon e de salsichas no risco de câncer sejam comparáveis aos perigos da fumaça de tabaco, que tem a adição de diversas substâncias químicas carcinogênicas e que aumenta o risco de câncer de pulmão cerca de vinte vezes.

Além disto, a reportagem da OMS classificou outros 940 agentes, além da carne vermelha, como carcinogênicos potenciais. No artigo acima do The Guardian, Betsy Booren, a vice-presidente de assuntos científicos da North American Meat Institute (Instituo Norte Americano da Carne), colocou as coisas em perspectiva:

O IARC diz para você curtir a aula de ioga, mas não respire ar (cancerígeno classe 1), sentar perto de uma janela com sol (classe 1), aplicar aloe vera (classe 2B) se você tiver uma queimadura de sol, beber vinho ou café (classe 1 e classe 2B), ou comer comidas grelhadas (classe 2A). se você for cabeleireiro ou fizer trabalho em turnos (ambos classe 2A), você deve procurar uma nova carreira.

Neste ponto, dado o que a pesquisa indica, eu não sinto que um consumo moderado de carnes processadas ou curadas causam um risco significante à saúde, desde que você faça outras coisas corretamente (i.e., nutrir sua flora gastrointestinal, comer comidas densas nutricionalmente, exercitar-se etc.). Eu penso que há ainda meno evidência sugerindo que devemos limitar o consumo de carne vermelha fresca, especialmente aquela preparada gentilmente (ao invés de escorchada) e quando você come “da cabeça aos pés.” (NT.: isto é come também os órgãos, como fígado e outros)

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