A carne vermelha é insalutar?

NT.: Embora este post tenha sido escrito há cerca de seis anos, a mentalidade estreita que ele descreve, e atenção de que devemos ter com as “provas” que são apresentadas pela mídia estão a cada dia mais atuais. E em segundo lugar, já passou da hora de todos que queiram ficar fortes e saudáveis tenham o máximo possível de informações embasadas sobre a carne vermelha. por Mark Sisson, o original está aqui. Tradução Daniel Castro O perigo vermelho É uma manchete que você provavelmente deve ter visto muito por aí – “Comer mais carne vermelha aumenta o risco de mortalidade.” (A carne vermelha de novo é o bode expiatório: surpresa, surpresa.) Na verdade, milhões de leitores ou espectadores tropeçaram nesta manchete e acreditaram totalmente nela. Mas você já nos conhece. É divertido demais ser o cético feliz quando falamos sobre esses pedaços de desinformação. Começando pelo começo: Se você não ouviu falar do estudo supramencionado ainda (ou quer ler o texto por si mesmo – o que é sempre recomendável), aqui está o link (em inglês) para o texto completo. A reportagem foi publicada em 23/03/2009 do Archives of Internal Medicine e foi mencionada por quase todas empresas de notícias esta semana. O básico é que os pesquisadores deram um “Questionário de Frequência de Comidas” a aproximadamente meio milhão de pessoas (com idades de 50 a 71) que foram parte do Estudo sobre Dieta e Saúde do National Institutes of Health-AARP. Participantes responderam a 124 perguntas sobre a ingestão de comidas e bebidas, bem como sobre o tamanho das porções nos doze meses anteriores. (O questionário (PDF) é cativante em si próprio.) Os pesquisadores então monitoraram o grupo por dez anos e registraram as estatísticas de mortalidade. Os resultados: Ao fim do período de 10 anos, 47.976 homens e 23.276 mulheres morreram. Os pesquisadores checaram as causas das mortes e a mortalidade geral em relação ao consumo de carne informado. A conclusão deles: “O consumo de carne vermelha ou processada estão associados a um aumento modesto (minha ênfase) na mortalidade total, mortalidade relacionada a câncer e a doenças cardiovasculares.” Mais especificamente, aqueles participantes (20%) que mais consumiram carne vermelha (média = 62,5 gramas a cada 1.000 calorias diárias) demonstraram um risco levemente maior para a mortalidade total, e relacionada à doenças cardiovasculares e câncer do que os 20% que consumiram menos (média = 9,8 gramas a cada 1.000 calorias diárias) carne vermelha. A mesma estatística foi observada quanto ao consumo de carne processada (“a maior” média = 22,6 gramas; “menor” média = 1,6 gramas). A tendência oposta foi observada para carnes brancas (peru, galinha e peixes): aqueles que mais as consumiam tinham menos risco de morte total e por doenças cardiovasculares e câncer (assim como por outros tipos de causas) do que aqueles que comiam menos carne branca. Conforme mencionado, eu te convido a ler o estudo completo e julgar por si mesmo. Ele tem tantos furos quanto um queijo suíço. (E cheira do mesmo modo também.) Por onde começar? O que dizer de um questionário autorreportativo? Todos juntos agora: vamos lembrar do que nós comemos no ano passado e resumir em poucas linhas… Ah, a generalidade dos estudos observacionais… Quanto a algumas críticas específicas… Não há, não surpreendentemente, uma medição do consumo de carboidratos neste estudo. Nós sabemos que carbs aumentam a insulina e que a insulina promove a produção e acúmulo de gordura, inflamação e doenças cardíacas. (Imagine se isto tivesse tanta publicidade…) Mesmo uma dieta moderada em carboidratos produz insulina o suficiente para aumentar a produção de triglicérides tanto advindas dos carboidratos quanto das gorduras ingeridas. Talvez estas pessoas comeram uma média de carboidratos tal que a gordura adicional da carne contribuiu mais para as doenças cardíacas nos 20% que mais consumiram carne. (O quanto de seu consumo de carne vermelha veio na forma de bifes ao invés de hambúrgueres com seu pão que obrigatoriamente acompanha etc.?) Interessantemente, um estudo menos divulgado nesta semana afirmou que um terço dos americanos tem altos níveis de triglicérides. Claro, os pesquisadores e a mídia em geral estão culpando(como sempre) o consumo de gordura saturada ao invés de consumo de carbs, o verdadeiro culpado nas medições de triglicérides. E nem me pergunte sobre os efeitos do xarope de milho rico em frutose nas triglicérides O establishment parece nunca se cansar desta bobagem sobre gorduras saturadas, e seu tratamento destes dois estudos confirmam isto ainda mais. (Sim, eu estou dizendo que o estudo sobre a carne vermelha é outra tentativa mal disfarçada de “confirmar” o pensamento convencional – consciente ou inconsciente.) O método científico, afinal de contas, é baseado em hipóteses. Vamos criar a mesma hipótese de novo e de novo e de novo: a gordura ou, neste caso, a carne, é ruim para você. Começando com esta mentalidade, não é difícil entender que você pode “prová-la” ao correlatar fracamente o consumo de carne com a mortalidade. Talvez você não possa e não vá, mas seus resultados provavelmente serão influenciados pela limitação de suas ideias, foco, e assunções que o levaram a desprezar diversos fatores que têm tudo a ver com seus resultados. Eu poderia criar a hipótese de que o ar da Califórnia é ruim para você, e enviesa o estudo ao focar minha análise em Bakersfield e ao fazê-lo provar minha hipótese. Ou eu poderia focar no ar imaculado de Mammoth e obter um resultado diferente. E se a hipótese do estudo fosse que carne convencional de criação intensiva, com uso de hormônios, antibióticos, resíduos de pesticidas e alimentados com grãos) aumenta um pouco a incidência de câncer e de doenças cardíacas? Você então necessariamente a testaria paralelamente com carnes limpas, de animais alimentados com grama, sem hormônios, pesticidas e antibióticos, e talvez com um dieta sem carnes. Mas neste caso eles não o fizeram. Eles se eles tivessem feito, eu prediria que eles veriam uma diferença mensurável entre aqueles que comem QUALQUER quantidade de carne convencional e aqueles que comem somente carnes limpas. Não há diferença entre as duas neste estudo – se é que de fato algum dos participantes comeu pelo menos um pouco de carne de animais alimentados com grama. Eu poderia usar este estudo para “provar” meu ponto atual de que carnes convencionais, carnes processadas, são um pouco menos saudáveis… exatamente o que eu digo em meu livro Primal Blueprint. Mas existem tantos outros fatores que causam confusão…. Os autores admitem que a preparação das carnes poderia ser um fator. Nós sabemos que cozinhar carnes demais pode produzir HCAs (Aminas heterocíclicas), que são carcinogênicas, bem como reações de maillard, que podem ser aterogênicas. No MDA (NT.: Marks Daily Apple, o site do autor), nós sugerimos que você não cozinhe as carnes demais por estas razões. Neste estudo não há menção do modo de preparação da carne, exceto a admissão de que carnes processadas podem aumentar o risco. Além disto, foi demonstrado que o consumo de vegetais e outras comidas, suplementos ou bebidas ricos em antioxidantes (como o vinho) podem neutralizar os potenciais atributos carcinogênicos do excesso de preparação da carne. O grupo que mais consumiu carne tinha o menor consumo de antioxidantes. Talvez isto explique a pequena diferença – mesmo descontando as demais variáveis. Finalmente, existem uma estonteante série de outras variáveis (além das variáveis supramencionadas) colocadas juntas em um pequenino e revelador pacote. Nas palavras do próprio autor, “Pacientes que consumiam mais carne vermelha tendiam a serem casados, a serem brancos não hispânicos, fumantes, com um IMC maior, com um consumo de calorias, gorduras e gorduras saturadas maior, bem como tendiam a ter menos tempo de educação e níveis de atividade física menores, bem como menos consumo de frutas, vegetais, fibra e suplementos vitamínicos.” Hmmm… Esta afirmação diz tudo (bem, quase), se você me perguntar. Os autores no final parecem ser bastante bons em descartar seu próprio argumento. Que pena que a maior parte da mídia não parece ser capaz de entender este ponto. Quem se interessar em ler mais (em inglês), Michael R. Eades, M.D. fala sobre isto em seu blog ao chamar a atenção para outros estudos que vieram em boa hora mas não foram muito divulgados nesta última semana. (Alerta de Spoiler: os estudos na verdade contradizem as descobertas deste estudo observacional condenando a carne.) Como o Dr. Eades sugere, a mídia tem um poder pouco apreciado de determinar quais estudos vão ser divulgados e quais não serão. Previsivelmente, aqueles que suportam a mentalidade prevalecente tendem a ser mais divulgados. (A grande quantidade de pessoas estudadas em estudos observacionais como estes também agem como iscas brilhantes e reluzentes, não importando o quão ilusórios sejam seus resultados.) A mensagem real deste estudo é esta: Não seja obeso, exercite-se, não fume, coma bastantes vegetais e frutas, tome suplementos, evite carnes processadas, coma diversas comidas de origem animal. (E quando você comer carne vermelha ou qualquer outra carne, tente comer na forma mais limpa possível, porque aparentemente a carne convencional com hormônios, antibióticos e alimentada com grãos pode aumentar levemente seu risco de doenças cardiovasculares e câncer– ou não.) A carne vermelha em si, no fim das contas, não parece ser pouco mais do que um arenque vermelho.

Anúncios
Esse post foi publicado em Ciência, Nutrição, Saúde e marcado . Guardar link permanente.

Uma resposta para A carne vermelha é insalutar?

  1. Pingback: Coma abacates | Nuvem de giz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s