Além da Robustez

20150515_200020por Daniel Castro

Como chamamos aquilo que resiste bem às tentativas de ser destruído, com poucos ou nenhum dano? Chamamos de forte, robusto, resistente. Mas e aquilo, que ao sofrer ataques, não só não resiste aos danos, mas fica mais forte? Simplesmente não temos um nome específico, até porque o próprio conceito nos parece estranho, alienígena. É com a premissa de responder a esta pergunta, e estudar tais coisas, que Nassim Taleb escreveu o livro Antifrágil (E o corretor ortográfico do WordPress logo indica que esta palavra não existe).

Logo de cara o autor já nos dá uma amostra do excelente conteúdo que virá nas próximas 600 páginas: A analogia de coisas frágeis, robustas e antifrágeis com três mitologias gregas, Dâmocles, a Fênix, e a Hidra.

Dâmocles era um cortesão bastante bajulador na corte do tirano Dionísio, de Siracusa. Ele dizia que, como um grande homem de poder e autoridade, Dionísio era verdadeiramente afortunado.

Dionísio ofereceu-se para trocar de lugar com ele por um dia, para que ele também pudesse sentir o gosto de toda esta sorte, sendo servido em ouro e prata, atendido por garotas de extraordinária beleza, e servido com as melhores comidas. No meio de todo o luxo, Dionísio ordenou que uma espada fosse pendurada sobre o pescoço de Dâmocles, presa apenas por um fio de rabo de cavalo. Ao ver a espada afiada suspensa diretamente sobre sua cabeça, perdeu o interesse pela excelente comida e pelas belas garotas e abdicou de seu posto, dizendo que não queria mais ser tão afortunado.

A espada de Dâmocles é uma alusão freqüentemente usada para remeter a este conto, representando a insegurança daqueles com grande poder (devido à possibilidade deste poder lhes ser tomado de repente) ou, mais genericamente, a qualquer sentimento de danação iminente.”

Ou seja, Dâmocles é a representação mitológica do frágil, apesar de aparentemente estar em uma boa posição, qualquer pequena perturbação da ordem normal das coisas significará uma tragédia. Claramente uma posição ruim de se estar.

“A fênix é um pássaro da mitologia grega que, quando morria, entrava em auto-combustão e, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas.”

A Fênix, por sua vez, é a representação do robusto, do forte, que resiste aos danos e retorna à sua forma inicial.

“A Hidra foi derrotada por Hércules, em seu segundo trabalho. Inicialmente Hércules tentou esmagar as cabeças, mas a cada uma que cortava surgiam duas no lugar.”

É aqui que as coisas começam a ficar interessantes. Hércules tentava cortar uma cabeça da Hidra, e duas nasciam no lugar. A Hidra se fortalecia com as tentativas do herói de causar danos a ela. A Hidra é antifrágil, uma característica ainda melhor que a robustez a que estamos acostumados. Quais exemplos do mundo real Taleb demonstra serem parecidos com a Hidra, antifrágeis? O que nos torna antifrágeis? Vejamos:

Saúde

Nietzsche popularizou a frase “O que não o mata o fortalece”, mas existe um termo técnico para exprimir esta ideia: Hormese.

Basicamente, qualquer coisa que cause pequenos danos ao corpo, pode, a médio prazo, levar a um fortalecimento deste. Esta é a ideia, por exemplo, por trás das vacinas, que preparam o corpo para doenças forçando-o a combater uma versão mais branda destas. Esta também é a ideia por trás do treinamento de musculação com pesos cada vez maiores, que vão aos poucos forçando o corpo a se preparar para cargas cada vez maiores. Neste aspecto, Taleb recomenda o levantamento terra como o melhor exercício possível. Um terceiro e bem menos conhecido caso é o do jejum intermitente, que ao forçar o corpo a se adaptar a um período razoavelmente grande sem comida, o leva a uma maior eficiência no uso de seus nutrientes.

Em oposição à Hormese, existe o conceito oposto, de como evitar tais pequenos danos pode levar à uma catástrofe após certo tempo. Este conceito é chamado de Iatrogenia.

Às coisas iatrogênicas se dá menos atenção do que às horméticas, mas elas são até mais importantes. Em relação à saúde, o exemplo mais difundido é o uso de medicamentos para tratar todo e qualquer sintoma, grave ou não. Uma anedota interessante é que o autor do livro caiu de cara no chão, ficou com seu nariz muito inchado e questionou os médicos e enfermeiros sobre a necessidade de colocarem gelo em seu nariz. De fato, não existem estudos comprovando que isto é benéfico, e se a natureza faz nosso nariz inchar em tais situações, deve haver um bom motivo. E então ele prossegue a demonstrar como a excessiva intervenção médica nos fragiliza, podendo gerar tragédias à saúde porque o corpo não está acostumado a lidar com os pequenos problemas horméticos.

Claro, existe muito mais do que isto no livro, com uma parte inteira dedicada à saúde, mas é impressionante que a qualidade do conhecimento sobre saúde de Taleb me impressionou profundamente, porque sua formação é em matemática estatística.

Economia

Enquanto o posicionamento econômico do erudito libanês não fica totalmente claro, aparentemente ele tem a tendência austríaca, que é a escola que mais se encaixa em suas ideias de antifragilidade. Enquanto que a corrente principal da economia atual prega que o governo deve intervir sempre na economia para evitar recessões, Taleb demonstra que ao se retirar pequenos problemas da economia, esta se torna frágil, engessada e vulnerável a grandes depressões, como a famosa grande depressão americana de 1929. Ele corretamente identifica grandes estados como prejudiciais ao desenvolvimento em oposição a pequenos estados, ou cidades-estados, como relativamente benéficas. Acontece que, quanto menor a centralização das decisões, mais pequenos choques antifragilizantes irão ocorrer, com o fortalecimento da economia a médio e longo prazo.

Outras

Há muitas outras áreas onde Taleb trás novas ideias de antifragilidade, como por exemplo a biologia (O organismo morre para que a espécie (ou o gene) sobreviva), a filosofia e os estudos (leia o mínimo possível que tenha sido publicado nos últimos 20 anos, pois quanto mais antigo um livro é, mais ele provou seu valor), religião (regras de convivência religiosas que provaram seu valor durante milênios provavelmente são boas para a sociedade), o que beber (beba somente água, vinho e café, pois são as bebidas que provaram seu valor ao longo dos último milênios), entre outras. Embora tais ideias não sejam tão aprofundadas quanto em recursos dedicados a estes temas, ele apresenta argumentos suficientes para começarmos a pensar, e desperta a vontade de nos aprofundarmos nestes temas.

Teoria da barra de pesos (barbell)

A teoria da barra de pesos é talvez a principal aplicação prática das teorias de Taleb, onde ele sugere uma heurística para contrabalançar uma dose de segurança com medidas horméticas criadores de antifragilidade.

Exemplos:

Um treino de musculação não deve ficar restrito ao ambiente seguro e estéril das academias, mas o praticante deve também praticá-la em ambientes mais aleatórios, ao ar livre, com pedras e coisas do tipo. O mesmo é válido para artes marciais, que devem ser praticadas dentro e fora do tatame.

O conhecimento não deve ser adquiro somente através da segurança de livros, mas também através da vivência e observação no mundo real.

Mulheres geralmente casam se com contadores, mas se apaixonam por estrelas de rock, pois estes poderiam supostamente garantir genes melhores, mas aqueles dariam uma segurança estável.

Escritores e cientistas aspirantes geralmente tinham empregos estáveis como funcionários públicos (Einstein e Kafka, por exemplo), além de seus projetos altamente arriscados.

Ou seja, a estratégia da barra de pesos é uma estratégia válida em diversas áreas, cuja premissa principal é ter uma boa dose de segurança sem que isto torne o agente algo frágil, reduzindo os riscos de eventos extraordinários ( que Taleb chama de Cisnes Negros) negativos, enquanto permitem a possibilidade dele se beneficiar de eventos extraordinários positivos (uma grande descoberta científica, genes melhores para a prole etc.).

Conclusão

Antifrágil não somente tem cerca de 600 páginas, mas é muito denso, sendo simplesmente impossível condensar todas suas ideias em um post de blog. Ainda assim, espero ter passado a ideia geral do livro, que certamente é um dos melhores que já li. Leia e você não irá se decepcionar.

Disponível na Amazon.com.br aqui.

Anúncios
Esse post foi publicado em Economia, Filosofia, Livros, Nutrição, Saúde e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Além da Robustez

  1. Pingback: Pensamentos aleatórios 2 | Nuvem de giz

  2. Héracles disse:

    Esse texto é impressionante, sempre volto pra ler de tempos em tempos.

  3. Pingback: Breve comentário sobre o caso da Alezzia | Nuvem de giz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s