As surpreendentes semelhanças entre o Xadrez e o Jiu Jitsu

por Daniel Castro

Xadrezsuave

“No tatame, mentiras e hipocrisia não duram muito tempo.”

Hélio Gracie

“Eu nunca derrotei outros mestres, eu sempre ajudo eles a se derrotarem.”

Emanuel Lasker, segundo campeão mundial de xadrez

Tendo aprendido a jogar xadrez quando criança, e praticando-o regularmente há cerca de 15 anos, a última coisa que eu esperava seria associar o rei dos jogos mentais a alguma atividade primordialmente física. Mas é exatamente isto que tem acontecido nos últimos 2 meses e meio desde que comecei a praticar também a arte suave. De fato, a minha ideia que o Jiu Jitsu era uma atividade primordialmente física se mostrou superficial, pois esta atividade requer um grau muito elevado de condicionamento mental. Em contra partida, o Xadrez também requer um bom condicionamento físico.

Mens sana in corpore sano

O nerd que vive lendo livros e não tem vida social.

O bombadão que não consegue completar uma frase sem erros linguísticos.

O que ambos tem em comum?

Eles são incompletos, desbalanceados, unidimensionais, falsos. Eles ignoram o provérbio latino “Mente sã em um corpo são” e acabam se prejudicando até mesmo em suas supostas áreas fortes.

No primeiro caso, a prática de qualquer uma das atividades, talvez ainda mais a prática do Jiu Jitsu, possa levar o nerd a desenvolver qualidades importantes como raciocínio (nerds geralmente possuem muitas informações armazenadas, mas pouca capacidade de pensar por si sós), confiança, sociabilidade e disciplina, entre outras.
No caso do bombado, ele pode aprender que apesar de a força ser importante, força sem auto-controle, sem inteligência e direção não levam a lugar nenhum, a não ser talvez a muitos problemas.

Qualquer que seja o caso, ambas atividades têm o incrível poder de balancear uma vida desbalanceada.

A posição é fundamental

Para o leigo, ou mesmo para grande parte dos iniciantes, a maioria dos jogos de xadrez de alto nível pode parecer extremamente entediante. Como se não bastasse o jogo se desenrolar às vezes por horas, é pouco comum que grandes mestres ataquem diretamente o rei do adversário, e não é raro que uma partida inteira se desenrole sem o ataque ao mesmo. Dado que o rei adversário é o próprio objetivo do jogo, isto sem duvida soa bizarro. Similarmente, no Jiu-Jitsu, vemos lutas do mais alto nível onde nenhum dos dois lutadores parece disposto a tentar finalizar o adversário, preferindo uma abordagem indireta de ganhos de posição, com o jogo baseado em passagens de guarda e raspagens.

Estas características refletem a beleza de ambas atividades, pois refletem o mundo real, onde não devemos dar passos maiores que a perna sob o risco de sofrermos graves danos. “Não ataque seu adversário se não possuir justificativa para isto” se aplica a ambos, e poderia ser traduzido para a vida real como “Não gaste mais dinheiro do que você possui”, “Não dê opiniões sobre assuntos que você não conhece” entre outros.

O melhor ataque pode ser a defesa



Eu acho muito belo que um sujeito franzino como Hélio Gracie tenha se tornado uma das maiores lendas das artes marciais, criando o padrão ouro das lutas competitivas e um grande clã de lutadores. Talvez o clima ultra esportivo dos dias atuais tenha diminuído um pouco o impacto da ideia genial de Hélio, pois o Jiu Jitsu esportivo é dividido por categorias de peso, sexo e faixa. Em um ambiente não esportivo, de rua, mesmo uma pessoa relativamente frágil, mas que seja jiujitsuca detém uma chance relativamente maior de prevalecer do que quem não estudou a arte suave, apesar de forte.

Conquanto esta não seja exatamente uma semelhança tão próxima com o xadrez, o princípio de defesa como ataque também encontra respaldo neste. As ideias do primeiro campeão mundial de xadrez, Willhem Steinitz eram de que não eram corretos os ataques impulsivos de sua época. E sozinho, Steinitz revolucionou o xadrez com seu jogo defensivo, muito à moda com que Hélio revolucionou a competição marcial com sua nova arte defensiva.

As melhores coisas da vida são difíceis e recompensadoras

“O xadrez, como a música e o amor, tem o poder de fazer as pessoas felizes.”
Siegbert Tarrasch

Você já parou para pensar porque, apesar de que hoje em dia termos um acesso enorme a bens materiais, a depressão tem crescido a ponto de ser chamada de o mal do século XXI? Bem, se você não sabe vou reproduzir as ideias do excelente livro Flow¹, de Mihaly Csikszentmihalyi: “O estado ótimo de experiência interna que pode ser alcançado é um onde há ordem na consciência. Isto acontece quando a energia psíquica – ou atenção – é investida em objetivos realistas, e quando as habilidades se adequam às oportunidades para ação.” (NT.: Em tradução livre do livro em inglês).

Isto significa que bens materiais, justamente por serem de fácil acesso, sem a necessidade de serem obtidos através de um foco concentrado, não trazem a felicidade justamente por isto. Somente atividades que requeiram atenção focada e uso de grande parte (ou toda) da habilidade do praticante para resolver os problemas daquela atividade. Ora o Jiu-Jitsu além de ser algo em constante evolução, exige décadas de dedicação para ser dominado, enquanto o xadrez é tão vasto que estima-se que existem mais partidas possíveis que átomos no universo.

Deste modo, fica claro que ambas práticas além de tudo que já se sabia sobre elas, podem também trazer a felicidade.

A verdade sempre prevalece

“Faixa só serve para amarrar quimono.”

Hélio Gracie

Nick Krauser é um de meus escritores prediletos, não só pelos excelentes conselhos que ele dá a outros homens (e de graça), mas também pela sua amplitude intelectual. Em um de seus posts, ele convincentemente descreve como a maioria das profissões está infestada de pseudo-especialistas.

Para boa parte das artes marciais isto é verdadeiro. Como podemos medir o nível de alguém no Aikidô ou Krav-Magá se ambas não possuem métodos de treino realistas ou competições? É simplesmente impossível, e com isto fica difícil também distinguir especialistas de charlatães.

Os campos da economia e da nutrição talvez sejam ainda piores. Os ditos especialistas nessas áreas repetem à exaustão que são capazes de transformar pedras em pão, ou que devemos comer de três em três horas. A partir do momento em que não são eles que têm de arcar com as consequências dessas bobagens, além de protegerem da verdade atrás de meros papéis conhecidos como diplomas, a verdade sofre.

A epidemia de especialistas incompetentes é tão grande que mesmo PhD’s em matemática erraram o cálculo de probabilidades do problema de Monty Hall, mesmo após a clara explicação dada por Marilyn vos Savant.²

Mas não no Xadrez, e não no Jiu Jitsu. Somente os melhores prevalecem. Mova uma peça para o lugar errado e você estará próximo de tomar um xeque-mate. Distraia-se por meio segundo e a hora de bater em desistência para não ser enforcado está mais próxima. E esta é a mais bela das semelhanças entre o Jogo dos Reis e a Arte Suave. Bravatas e um papel qualquer com o nome de diploma nada valem. Você é tão bom quanto sua última performance, e os resultados falam por si sós. Em mundo que é e sempre foi permeado por mentiras, esta beleza não poderia passar despercebida.

Conclusão

E assim retorno ao ponto de onde parti, mas tenho de confessar algo. Eu menti. Alterei as citações do começo do artigo, mas foi por um bom motivo.

As citações verdadeiras são:

“No tabuleiro, mentiras e hipocrisia não duram muito tempo.”

Emanuel Lasker, segundo campeão mundial de xadrez

“Eu nunca derrotei ninguém, eu sempre ajudo meus adversários a se derrotarem.”

Hélio Gracie

Mas, se você acha que as citações “falsas” do começo do artigo bem que são verdadeiras, bem, meu objetivo foi cumprido.

Referências:

1. Csikszentmihalyi, Flow, pág. 6.

2. Mlodinow, O Andar do Bêbado, pág. 61.

Imagens obtidas através da pesquisa Google por “Chess Jiu Jitsu” e “Citação Hélio Gracie”.

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6 respostas para As surpreendentes semelhanças entre o Xadrez e o Jiu Jitsu

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  3. Oi, Daniel,

    Boa matéria!! Fico pensando como seria uma luta de Jiu Jisu entre Tal e Petrossian ( supondo os dois grandes mestres nesta luta ). Acho que o Petrossian ganharia.

    Aloisio Teixeira

  4. Libertador disse:

    Tópico muito bom, Daniel!

    Pra quem já praticou xadrez e jiujitsu como eu o tópico faz todo o sentido, não sei pra quem vê de fora, se consegue entender bem essas comparações, deve parecer meio sem sentido.

    Eu gosto de jogar xadrez, jogava partidas disputadas com meu pai, e tinha um primo que foi professor de xadrez também, aprendi bastante coisa.

    E fiz alguns meses de Jiujitsu na academia Gracie Barra há poucos anos atrás e percebi uma semelhança imensa entre os dois, além do fato que os próprios praticantes fazem bastante essa comparação, pra cada golpe, existe um contragolpe, e o mais incrível é que não é o mais forte que ganha, já que por mais que se tente usar a força no Jiujistu ela é inútil contra alguém que sabe como neutralizar a sua força e usar a sua própria força contra você. Um magrelo com técnica avançada consegue vencer um gigante com facilidade.

    É muito edificante praticar este tipo de luta. Se aprende muita coisa.

    Tenho o quimono guardado aqui até hoje, em breve pretendo voltar a praticar o jiujitsu e talvez até participar de umas competições pra dar aquela animada nos treinos.

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