Somos carnívoros ou vegetarianos? Parte 1

por Michael Eades. O Original está aqui.

Um dos problemas – se é que pode ser chamado de problema – em escrever este blog e moderar os comentários é que a maioria dos leitores é bem inteligente. Ocasionalmente eu vejo um vegetariano nervoso aparecer, me desafiar quanto ao meu caminho incorreto, e, após uma resposta ou duas de minha parte, desaparecer para nunca mais ouvirmos nada dele de novo. Liam Are we meat eaters or vegetarians? Part IGraças ao viés de confirmação, este blog seleciona contra aqueles que não comem carne. Então, eu tendo a esquecer quantas pessoas existem lá fora que não entendem nada sobre nutrição básica, e quantas pessoas ficam repetindo clichês a vida toda como se eles fossem grandes verdades nutricionais. Baseados nos comentários que eu recebo neste blog, me parece que a maior parte das pessoas é nutricionalmente sofisticada e razoável.

Mas recentemente me desiludiram desta noção.

Meu amigo Tim Ferriss colocou um trecho de nosso novo livro The 6-Week Cure em seu site alguns dias atrás e me perguntou se eu poderia responder a alguns dos comentários. Eu disse que não me importava, mas eu não sabia onde eu estava me metendo.

O blog de Tim não é realmente um blog sobre nutrição. – é um blog de design de estilo de vida (tal termo foi inventado pelo próprio Tim). Existe um pouco de nutrição aqui e ali, mas o blog é focado em outras direções. Como consequência, ele atrai principalmente leitores jovens que gostam de seguir as aventuras de Tim e querem aprender a modelar suas vidas como a dele.  O meu blog é especificamente direcionado a pessoas mais interessadas em nutrição, que estão dispostas a aguentar minhas digressões em outras áreas de tempos em tempos, então eu espero que elas tenham conhecimento nutricional.

Eu não estava preparado para o que eu obtive nos comentários do post de Tim. Surpreendentemente, havia um número razoável de comentadores – talvez até mesmo a maioria – que se sentiriam à vontade em meu blog.  Mas havia também uma quantidade razoável que me fez perceber que sofisticação nutricional está longe de ser um fenômeno universal. Você pode dar um pulo na seção de comentários do blog para ver o que eu quero dizer. Eu respondi principalmente àqueles que eu pensei estarem totalmente fora do caminho correto, então você poderá ler meus comentários, e então voltar ao comentário a que eu estava respondendo para entender o que estou dizendo.

A experiência me fez entender o vácuo de boas informações que existe lá fora explicando porque seres humanos na verdade são comedores de carne intrínsecos, então eu decidir fazer alguns posts sobre o assunto para futura referência quando o assunto ressurgir. Enquanto eu estava ruminando esta ideia, eu recebi um link para um artigo tão idiota que eu me decidi a escrever este artigo. Ela me fez perceber que este é o tipo de coisa que está circulando por aí, então não é incrível que estas pessoas tenham noções tão bizarras do que constitui uma dieta racional.

Vou começar nesta primeira parte examinando algumas dessas coisas sem sentido, e vou terminar na segunda parte com alguns dos artigos clássicos mostrando porque nós humanos não somos somente carnívoros, mas somos humanos porque comemos carne.

O link que um amigo me mandou é um que eu vi ser referenciado em outros sites low-carb ou paleo.  Eu nunca havia pensado muito a respeito até a experiência com o blog de Tim Ferris me fez perceber que realmente existem pessoas comprando essas bobagens.

artigo da AlterNet começa com uma grande e audaciosa chamada:

Comer carne não é natural

Não há dúvida aqui. Uma sentença categórica como eu jamais vi antes. Vamos ver como a autora do artigo – Kathy Freston – a sustenta. Ela começa com um pequeno parágrafo introdutório que termina com outra sentença categórica. Eu percebi que esse pessoal ama escrever estas coisas com tal autoridade. O mesmo acontece com as pessoas no blog do Tim. Não há dúvida em suas mentes que eles estão corretos. Mas eles operam em um vácuo informacional.

O que nos leva a uma grande citação do livro de Lierre Kieth:

Eu estava do lado da justiça, e como qualquer fundamentalista, eu só conseguia continuar lá ao evitar informações.

Aqui está o parágrafo introdutório do artigo da AlterNet:

Olhando comentários de leitores em alguns de meus artigos recentes, eu percebi a noção frequentemente expressa que comer carne foi um passo essencial na evolução humana. Enquanto tal noção pode confortar a indústria de carne, simplesmente ela não é verdadeira, cientificamente.  [Itálicos meus]

Não há hesitação aqui.  “Simplesmente ela não é verdadeira, cientificamente.”  Nem mesmo uma pitada de dúvida.

Como nossa autora prova que não é verdade? Referindo-se a escritos de pessoas que se apresentam como cientistas mas que são ideólogos vegetarianos.

Dr. T. Colin Campbell, professor emeritus na Universidade de Cornell e autor do livro The China Study (por favor veja o link), explica que de fato, nós somente recentemente (falando historicamente) começamos a comer carne, e que a inclusão de carne em nossa dieta começou após já nos termos tornado o que somos hoje. Ele explica que “o nascimento da agricultura somente começou há 10.000 anos em uma época quando se tornou consideravelmente mais conveniente pastorear animais. Isto não é nem próximo do tempo [que] moldou nossa funcionalidade bioquímica básica (pelo menos dezenas de milhões de anos) e cuja funcionalidade depende da composição nutricional de comidas baseadas em plantas.”

Ah, nosso velho amigo Dr. T. Colin Campbell e o estudo da China. Muito comentadores no blog do Tim se referiram a este estudo como se ele fosse evangelho. Antes de chegarmos ao The China Study, eu tenho uma revelação a fazer. Eu nunca li a coisa. Então como eu posso falar sobre ela inteligentemente? Porque eu apareci no palco com o Dr. Campbell.  Alguns anos atrás nós dois falamos em um simpósio em algum lugar (que eu sequer consigo lembrar onde foi agora), e a fala dele precedeu a minha. Enquanto eu estava sentado lá, eu escutei atentamente e tomei notas enquanto olhava seus slides. O que eu percebi logo de cara é que o todo o esquete dele não passava de um estudo epidemiológico ou  observacional , que, como eu já escrevi aqui antes, não prova causalidade e serve somente para derivarmos hipóteses. Ele usou toda a sua apresentação tentando provar sua tese com estudos que não podem ser usados para provar nada. Uma vez que eu gastei uma hora escutando, assistindo e então refutando, e imagino que eu ganhei um passe livre para não ler o livro.

Se você quiser ler mais sobre o The China Study, eu sugiro que você olhe duas fontes. Primeiro, leia a resenha de Chris Masterjohn, então você pode ler a a resposta do Dr. Campbell, e então a tréplica de Chris a esta. E você pode ler a resenha do meu bom amigo Anthony Colpo  sobre o livro. The China Study é um trabalho bem infeliz, e uma vez que é um estudo observacional (cujos resultados são mal representados no livro de ciência popular disponível), não prova nada. Eu certamente não correria para me tornar vegetariano por causa dele.

Porém se você ler alguns do comentários na Amazon, você achará que o livro é a segunda chegada de Cristo. Estas pobres pessoas que foram enganadas assim não entendem o quão inúteis tais estudos são.

Na citação acima, o Dr. Campbell está obviamente ignorante do fato de que o nascimento da agricultura envolveu primariamente a mudança de uma subsistência caçadora/coletora para o crescimento de grãos.  A revolução agrícola não foi uma mudança de uma existência herbívora para o pastoreio de animais por comida. Este tipo de bobagem nos mostra o quão mal direcionados este tipo de pessoas está, e como eles distorcem os fatos históricos para se encaixarem em seus propósitos.

[Nota: Desde então eu li o The China Study e postei sobre ele aqui.]

A próxima ‘autoridade’ trazida pela nossa autora não é ninguém menos que o Dr. Neal Barnard, presidente da inapropriadamente nomeada Physician’s Committee for Responsible Medicine (Comitê dos Médicos pela Medicina Responsável) e ele próprio vegetariano.

Isto concorda com o que o Presidente do Physicians Committee for Responsible Medicine, Dr. Neal Barnard, diz em seu livro, The Power of Your Plate, no qual ele explica que “os primeiros humanos tinham dietas parecidas com as dos outros grandes macacos, o que quer dizer uma dieta largamente baseada em plantas, pegando comidas que podíamos pegas com as mãos. Pesquisas sugerem que o carnivorismo provavelmente começou com carniçaria — comendo as sobras que os carnívoros deixaram para trás. Porém, nossos corpos nunca se adaptaram a isto. Até hoje, comedores de carne tem uma maior incidência de doenças cardíacas, câncer, diabetes e outros problemas.”

Este é o Dr. Barnhard do muito elogiado (por ele mesmo, pelo menos) ‘estudo’ dos problemas das dietas com poucos carboidratos que eu refutei  há alguns anos.

Ele está correto ao dizer que os primeiros humanos provavelmente começaram comer carne através da carniçaria. Os registros paleontológicos parecem confirmar isto. Mas a parte sobre nossos corpos nunca terem se adaptado a isto é a parte que comedores de carne tem maiores incidências de todas as doenças mencionadas é pura bobagem. Se o Dr. Barnhard fosse pedido para arranjar referências para tudo isso, tudo o que ele poderia possivelmente produzi seriam alguns estudos observacionais, que como sabemos, não provam nada. E para cada um que ele mostrasse, eu poderia mostrar a mesma quantidade mostrando o oposto.

Agora chegamos à próxima autoridade: Richard Leakey.

Não há fonte com mais autoridade em questões antropológicas que o paleontologista Dr. Richard Leakey, que explica o que qualquer um que cursou um curso de introdução à  fisiologia discerne intuitivamente — que humanos são herbívoros. Leakey nota que “você não pode rasgar carne ou couro de animais com as mãos… Nós não conseguiríamos lidar com uma fonte de comida que requeresse caninos grandes” (embora nós tenhamos dentes que chamados de “caninos,” eles têm pouco em comum com os caninos dos carnívoros).

Hmmm.  Eu imagino se Leakey já viu os caninos de um gorila? Eles certamente se parecem com os caninos de um carnívoro, mas ainda assim gorilas são vegetarianos exclusivos. Mas continuemos.

De fato, nossas mãos são perfeitas para pegar frutas e vegetais. Similarmente, como os intestinos de outros herbívoros,  os nossos são muito longos (carnívoros têm intestinos curtos para que eles possam se livras rapidamente da carne podre que eles comem). Nós não temos garras afiadas para pegar e segurar presas. E a maioria de nós (tomara) não te o instinto que nos levaria a perseguir e matar animais e devorar suas carcaças cruas. O Dr. Milton Mills constrói sobre esses pontos e oferece dezenas mais em seu ensaio, “A Comparative Anatomy of Eating.”

Toda essa coisa sobre anatomia é pura besteira, mas mesmo assim muitas pessoas sem habilidade na arte do pensamento crítico a compram. Na parte 2 desse post, eu falarei sobre questões anatômicas, então vou deixá-las de lado até lá. Se você estiver entediado. você pode querer dar uma olhada no livro a Comparative Anatomy of Eating, que é uma tentativa não muito bem sucedida de enfiar um bloco quadrado em um buraco redondo. O  Dr. Milton realmente tem que esticar seus conceitos para encaixar a anatomia com suas noções de para quê ela serve. Eu vi tantas variações desse tema – pessoas mostrando pequenas mudanças anatômicas para provar que humanos na verdade são herbívoros – que eu perdi a conta.

A autora agora fala sobre o último especialista dela, um bem conhecido médico da corrente principal.

O ponto é este: Milhares de anos atrás quando nós éramos caçadores-coletores, nós talvez necessitássemos de um pouco de carne em nossas dietas em tempos de escassez, mas não necessitamos agora. Diz o Dr. William C. Roberts, editor do the American Journal of Cardiology (Jornal Americano de Cardiologia), “Embora nós pensemos que somos. e agimos como se fôssemos, seres humanos não são carnívoros naturais.  Quando matamos animais para comê-los, eles terminam nos matando, porque sua carne, que contém colesterol e gordura saturada, nunca foi feita para seres humanos, que são herbívoros naturais.”

Este cara realmente saí dos trilhos. Ele nos diz que “quando matamos animais para comê-los, eles terminam nos matando,…  Uma afirmação forte para a qual ele não tem nada a não ser sua própria opinião para sustentar. Então ele realmente dá um salto. Estes animais que matamos terminam nos matando porque “porque sua carne, que contém colesterol e gordura saturada, nunca foi feita para seres humanos, que são herbívoros naturais.”  Ah, é mesmo. Aquele colesterol vai nos matar, é? É por isso que temos nos mesmos colesterol e plantas não? Porque todas as células do nosso corpo são capazes de produzir colesterol? Porque nós não precisamos dele? A profundidade da burrice dele é inexplicável. Percebendo que esse cara é o editor de um grande jornal de cardiologia lhe faz saber rapidamente porque tais jornais publicam artigos enviesados como esse.

Nossa autora continua.

É certo, a maioria de nós são “onívoros comportamentais” — ou seja, nós comemos carne, e isso nos define como onívoros. Mas nossa evolução e nossa fisiologia são herbívoras, e uma ciência ampla prova que quando nós escolhemos comer carne, isso causa problemas, desde energia decrescida até uma necessidade de dormir mais, e um aumento no risco de obesidade, diabetes, doenças cardíacas e câncer.

E aqui de no a ideia que carne causa obesidade, diabetes, doenças cardíacas e câncer. Ao invés da “ampla ciência” que alega, não há qualquer prova. Ela usa uma expressão interessante: ela descreve nós humanos como “onívoros comportamentais”, que eu penso ser uma boa definição, mas que ela está usando incorretamente. Ela quer dizer que na verdade somos herbívoros. mas que aprendemos a sermos onívoros. logo, somo onívoros comportamentais, e não onívoros reais. Eu concordo com ela, mas com uma diferença; Eu penso que nós somos carnívoros que se adaptaram a uma existência onívora. então somos onívoros comportamentais, somente não do jeito que ela acha que somos. Os gorilas são vegetarianos comportamentais. Eles tem os tratos gastrointestinais desde os dentes até o outro final de carnívoros – e elas se dão bem sendo alimentados com carne em zoológicos– mas culturalmente eles são vegetarianos ou vegetarianos comportamentais.

Velhos hábitos não morrem facilmente, então é conveniente para pessoas que gostam de carne pensar que existem evidências para sustentar sua crença que comer carne é “natural” ou que é a causa de nossa evolução. Por muitos anos, eu também me agarrei à ideia que carne e laticínios eram bons para mim; Eu entendo agora que eu estava confortável em ter uma justificação para minha ligação contínua às tradições com as quais eu cresci.

Mas de fato, os melhores cientistas nutricionais e antropológicos das mais renomadas instituições dizem categoricamente que humanos são herbívoros naturais, e que nós seremos mais saudáveis hoje se aderirmos às nossas raízes herbívoras. Pode ser inconveniente, mas olha só, é a verdade.

Elas termina resumindo todas as bobagens que ela apresentara. E ela confia em que outras pessoas dizem para ‘provar’ os pontos dela – todas melhores cientistas das mais renomadas instituições – que é uma grande dica que ela mesma não olhou as fontes originais e está simplesmente se baseando em “ouvir falar”. Mas, ei, ela é uma jornalista, não uma cientista, então ela tem de confiar em cientistas para que lhe contem o que está acontecendo, certo? Até certo ponto, mas ela deveria também checar com alguns outros “melhores cientistas” de outras “instituições renomadas” para talvez darem contra-opiniões.

Praticamente desafia a credulidade de que pessoas possam ser tão ingênuas para dar qualquer crédito a um artigo como esse, mas, após lidar com o blog do Tim, é aparente que muitas pessoas dão.

Uma jornalista que não dá, porém, é minha amiga Amy Alkon, mais conhecida como a Deusa dos Conselhos que escreve uma coluna que eu nunca perco. Em sua última, publicada no Orange County Register, ela dá conselhos a uma vegan que começou um novo romance com um não-vegetariano. Enquanto você lê o pedido de conselho da vegan, você pode ver seu senso inato de autoridade moral começando a aparecer. O conselho da Amy não tem preço. (Foi a própria Amy, de fato, quem me mandou o link por e-mail (após um fanático ter mandado para ela) para o artigo acima que eu acabei de gastar três páginas analisando.)

Enquanto você está por aqui, leia o conselho para o próximo pretendente após a vegan. Minha parte predileta:

As pessoas dizem que as melhores coisas da vida – amor, amizade, luz da lua – são grátis, mas assim é com as piores também: linfoma, uma mordida realmente grande, e mortes nas estradas.

Quão verdadeiro, quão verdadeiro.

No próximo post iremos ver um artigo famoso da literatura antropológica que demonstra virtualmente sem dúvidas que comer carne é o que nos tornou humanos.

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